“Não existe inovação sem dados”

Para Claudio Garcia, professor da NYU, uma das maiores oportunidades de inovação para o RH em 2023 está na correta utilização de dados para a tomada de decisões

Assim como várias outras áreas, os caminhos do RH foram alterados pelas consequências da pandemia da covid-19. De um dia para o outro, a área foi obrigada a fechar os locais de trabalho e a enviar os funcionários para home office. A distância forçada exigiu adaptações para que processos rotineiros continuassem funcionando e, assim, o RH acabou adotando mais tecnologia para recrutar, integrar e até cuidar da saúde dos empregados.

Agora, conforme a crise sanitária fica para trás, é hora de o RH olhar para a frente e seguir inovando para encontrar novas respostas para a gestão de pessoas.

Em entrevista exclusiva à Think Work, Claudio Garcia, professor da Universidade de Nova York, presidente da The Outthinker Strategy Network e jurado do prêmio Think Work Flash Innovations 2022, fala sobre a inovação na gestão de pessoas e o futuro do RH.

Think Work: Segundo pesquisa da Think Work, um dos principais desafios do RH em 2022 era manter a cultura organizacional. Esse obstáculo pode ser considerado superado?

Cláudio Garcia: Pelo contrário. Acredito que em 2023 ainda teremos uma extensa agenda relacionada ao trabalho híbrido ou remoto, de onde deriva a problemática recente da cultura. Essa conversa ainda não acabou, o que podemos verificar pelos Estados Unidos e pela Europa, onde a discussão ainda está fervilhando. 

A verdade é que o modelo mais adequado ainda não foi encontrado. As coisas funcionam muito bem quando o trabalho é totalmente remoto ou totalmente presencial, mas para o híbrido, que foi para onde grande parte das empresas caminhou, não existe um modelo perfeito ainda. As companhias estão escorregando e acho que ainda vai ter muita discussão. 

Think Work: A saúde mental dos funcionários também apareceu como outro ponto de atenção. Isso deve se intensificar em 2023?

Cláudio Garcia: A questão da saúde mental deve perdurar. É impressionante como vemos cada vez mais vemos estudos, pesquisas e iniciativas que dizem que estão tentando resolver o problema da saúde mental com coisas que não tem nada a ver com a raiz do problema. Várias empresas estão dando acesso facilitado a terapeuta, coach, treinos de resiliência…

Na verdade, o maior problema é na liderança. É no modelo de sistema de controle das pessoas.

Outra questão é que no trabalho híbrido ou remoto as pessoas já acordam, pegam o café e vão direto para o computador. E aquele tempo ouvindo rádio no carro, ou esperando o ônibus, que sim, pode ser estressante, mas que é uma atividade diferente do trabalho, não existe mais.

A questão da saúde mental é uma consequência disso tudo, entre outros fatores. Esse problema está longe de ser resolvido. Ainda mais caso a recessão, que muitos preveem, de fato, aconteça. 

Tradicionalmente, nesses momentos, as empresas enxugam os custos fazendo demissões, enquanto os funcionários que ficam sempre assumem mais tarefas. Então, caso isso aconteça mesmo, a agenda da saúde mental deve vir ainda mais forte daqui para frente.

Think Work: Como o RH pode inovar para melhorar o problema da saúde mental dos funcionários?

Cláudio Garcia: A maior inovação que deveria estar acontecendo, não no RH, mas nas organizações como um todo, e o RH deveria ter um papel importante nisso, é a inovação nos modelos de gestão. 

Não adianta nada você dizer: “Ei, líder, você tem de cuidar da saúde mental dos seus funcionários”, se existe uma pressão absurda em todo o sistema para que o modelo de gestão permaneça inalterado, que muitas vezes começa lá no CFO ou no CEO.

Existe toda essa mensagem das empresas de serem mais justas, de lideranças mais humanizadas. Mas qual foi o tipo de software mais vendido para o RH durante a pandemia? Sistemas que verificam se o funcionário está na frente do computador. Assim, o mindset de controle, de manter a mesma máquina funcionando, que reflete todo o modelo de gestão, não mudou.

A maior inovação que deveria estar acontecendo é como a gente repensa esse sistema, como a gente o humaniza, não para tornar um ambiente agradável para todos, mas para ter um modelo que navegue de maneira relacionada à forma como os indivíduos funcionam de fato.

Quais seriam esses novos modelos de gestão, quais são as novas práticas? Essa é a grande inovação. E minha sensação é que o RH não está participando dessa conversa. 

A grande inovação que deveria vir do RH é sobre a dinâmica social humana que o sistema de gestão influencia dentro de uma organização.

Think Work: É possível melhorar as iniciativas de inovação na gestão de pessoas?

Cláudio Garcia: Quando você vê um RH inovando, tirando a parte da automação que é muito simples, mas na hora de utilizar o potencial humano a favor da organização, você percebe que o RH vai muito por moda. 

O que todo mundo está fazendo? O que aquela startup da moda está divulgando? E o que a gente vê é que essa perseguição por algo que pareça inovação é tão frágil, que pouquíssimas empresas utilizam um componente essencial para poder inovar efetivamente, que são os dados. 

Eles simplesmente são ignorados em grande parte das vezes. Existe uma lacuna gigante na gestão de dados que é uma parte essencial da inovação. Sem compreendê-los, e sem olhar para as informações que eles trazem, é impossível inovar. Se trata de uma ilusão. 

Você vai estar fazendo algo bonito para agradar alguém, ou para mostrar que está fazendo alguma coisa… Mas você não está resolvendo um problema de fato. Mesmo que por acaso esteja resolvendo, sem os dados, você nunca vai saber se teve sucesso ou não.

A verdade é que temos que percorrer um grande caminho para começar a dizer que o RH está inovando no Brasil. 

Think Work: O que você diria para um RH que quer começar 2023 do “lado certo” da inovação na gestão de pessoas?

Cláudio Garcia: Minha grande dica para as empresas é resolver o básico em relação a dados, investindo em projetos e profissionais especializados em people analytics.

O segundo passo seria tentar olhar para o sistema, o modelo de gestão, e inovar nele, ao invés de ficar atuando pelas pontas. É nessa parte que está a grande oportunidade. 

A gente vê vários desafios de produtividade, eficiência, de saúde mental, e várias outras coisas, mas a essência de todas elas está na forma que as equipes, gestores, e toda empresa está interagindo entre si.

Para mim são os dois grandes passos para o futuro do RH. Resolver a questão dos dados e partir para a inovação do sistema de gestão.

Comentários

  1. EUSTÁQUIO SANTOS SILVEIRA disse:

    Eu tenho uma solução para esse problema!!! MAS é muito DESRRUPTIVO ! talvez O rh não esteja preparado para essa Solução!! MAS ESTAMOS dispostos a conversar!mas ESSE É O maior problema!! No máximo so conseguimos falar com uma secretária !!!

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