Dos empregados, 65% participaram do levantamento, base para a fundação propor soluções, como acompanhar cinco funcionários em situação de pobreza multidimensional
Em 2020, Emerson de Almeida, fundador da Fundação Dom Cabral (FDC), conheceu o projeto inovador da empresa Florida Ice & Farm Co. (FIFCO), na Costa Rica. A iniciativa consistia em uma pesquisa para identificar privações enfrentadas pelos funcionários em aspectos sociais, econômicos e políticos, decorrentes de fatores como baixa escolaridade, moradia precária, bem como a falta de acesso a serviços básicos e infraestrutura.
Inspirado por essa abordagem, Almeida trouxe para a FDC a metodologia inédita até então no Brasil para mapear a pobreza multidimensional entre funcionários de empresas e buscar soluções humanitárias.
“O professor Emerson de Almeida argumenta que, para uma empresa prosperar, é necessário que a comunidade onde atua também prospere. Daí a importância do olhar humano para os funcionários e suas famílias, e a necessidade de diagnosticar rapidamente suas vulnerabilidades”, explica André de Almeida, professor e subdiretor do Hub de Inclusão Social da FDC.
O caminho
A área de RH da FDC começou a estruturar o projeto em 2021, com o apoio técnico de André de Almeida e Flávia de Magalhães Alvim, professora associada e pesquisadora do Hub de Inclusão Social. A iniciativa foi batizada de ComViver – Pesquisa de Equilíbrio Social.
A pesquisa utiliza uma ferramenta específica comercializada pela empresa americana Wise Responder. Ela se baseia na metodologia Alkire-Foster, desenvolvida pela Iniciativa de Pobreza e Desenvolvimento Humano (OPHI) da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
Essa metodologia avalia o Índice de Pobreza Multidimensional (IPM) por meio de três macrodimensões (saúde, educação e padrão de vida) e 12 indicadores, (nutrição, mortalidade infantil, escolaridade, frequência escolar, gás de cozinha, saneamento básico, água potável, eletricidade, habitação, bens) a fim de determinar a incidência e a intensidade da pobreza vivenciada por um grupo familiar ou população.
No início de 2023, a FDC iniciou a aplicação do Índice de Pobreza Multidimensional Empresarial (IPMe), adaptado ao setor privado, sendo esta a primeira vez que o estudo foi realizado no Brasil.
Diversas etapas marcaram o processo: tradução do questionário para o português, treinamento de oito facilitadores para apoiar a aplicação, campanha de comunicação interna, assim como reuniões de sensibilização com gestores.
“Contamos com uma consultoria para trabalhar a comunicação interna, motivar a participação de todos e fazer a pesquisa de maneira sensível. A pessoa precisava falar ali de questões íntimas, como sua vida financeira ou se tinha ou não rede de esgoto em casa, então era preciso sensibilidade”, afirma Cláudia Pereira, diretora da área de pessoas da FDC.
Resultados
A pesquisa, realizada entre maio e junho de 2023, obteve 231 respostas (65% do quadro de funcionários à época). Apenas cinco funcionários foram caracterizados como pertencentes a famílias em pobreza multidimensional, enfrentando desafios como privação de escolaridade, endividamento e cuidados com crianças.
O IPMe da FDC foi o mais baixo registrado até então pela Wise Responder, totalizando 0,006, enquanto o índice médio da América Latina foi de 0,144 em 2023.
Em janeiro de 2024, um profissional de RH da FDC especializado em assistência social realizou diálogos individuais com os cinco funcionários, respeitando suas privacidades. O objetivo era conversar e entender a situação de cada um sete meses após a pesquisa.
Naquele momento, as cinco famílias já estavam em condições melhores daquelas relatadas previamente e não precisavam de nenhuma ajuda emergencial. Contudo, a fundação manteve o canal de apoio aberto para atender necessidades futuras.
A empresa acredita que a pesquisa foi importante para mapear a existência de desigualdade social internamente. Além disso, garantiu que nenhum caso de pobreza multidimensional ficasse sem a ajuda do RH e dos gestores.
Os resultados do levantamento também reforçaram projetos internos, como campanhas de educação financeira, uso preventivo do plano de saúde e conversas sobre saúde mental.
“Tivemos diversos outros insights relevantes para pensar em projetos futuros. Por exemplo, com foco no home office, no excesso de horas de trabalho de algumas pessoas e na importância de aumentar a licença parental”, avalia Cláudia.
A FDC considera que a pesquisa pode impulsionar projetos futuros como, por exemplo, voluntariado interno e redes colaborativas entre funcionários.
THINK & DO
As dicas da Fundação Dom Cabral para as empresas que desejam pensar em pesquisas de equilíbrio social:
- Encare o desafio. A área de pessoas e as lideranças precisam dizer sim e topar os desafios de um projeto complexo, sem medo de dar o primeiro passo.
- Tenha um olhar humano. Em toda a companhia, partindo do CEO, é preciso existir o valor humanitário e a vontade de formar funcionários, executivos e líderes mais humanos.
- Mostre o impacto. A pesquisa não é apenas um projeto social. Ela também traz um impacto direto ao negócio da companhia. Mostre isso às lideranças.
