Fernando Sollak analisa dados da pesquisa que apontam a consolidação de um novo contrato de trabalho, marcado por 97% de confiança no futuro e apenas 12% de interesse em liderar
O profissional brasileiro está otimista. A recente pesquisa “Futuro do Trabalho: onde estamos e para onde vamos?”, realizada pela Futuros Possíveis com o apoio da Totvs e do Instituto da Oportunidade Social (IOS), revelou que 97% dos trabalhadores se sentem preparados para o futuro do trabalho.
O alto nível de confiança é uma excelente notícia para o mercado, pois sinaliza uma mão de obra disposta a encarar os desafios que se desenham e se intensificam. Contudo, com essa confiança, emergem novas expectativas que exigem uma recalibragem da nossa visão sobre carreira, liderança e natureza do trabalho.
A tecnologia, especialmente a inteligência artificial, é um pilar central dessa transformação. Segundo a pesquisa, 68% dos profissionais não veem a IA como uma ameaça direta, mas como uma aliada para ganho de eficiência e produtividade. O receio maior não é a substituição por uma máquina, mas por um profissional que domine melhor as novas ferramentas.
Isso estabelece um novo contrato de responsabilidade compartilhada. Embora 55% dos profissionais acreditem que a preparação para o futuro seja uma via de mão dupla entre empresa e empregado, há uma crescente conscientização da importância do protagonismo individual.
Nesse cenário, o aprendizado contínuo deixa de ser diferencial e passa a ser requisito básico do novo contrato de trabalho. Cabe às empresas criar ambientes de segurança psicológica que estimulem curiosidade, experimentação e letramento digital.
Na Totvs, por exemplo, investimos em trilhas de conhecimento sobre dados e IA para todos os colaboradores, garantindo que a tecnologia seja um meio para potencializar talentos, não uma fonte de insegurança. O objetivo é liberar as pessoas de tarefas mais operacionais e repetitivas para que possam focar no que é humano: o pensamento crítico, a criatividade e a tomada de decisão estratégica.
A liderança no novo contrato de trabalho
Talvez o dado mais provocativo da pesquisa esteja na liderança no trabalho. Apenas 12% dos profissionais aspiram a cargos de gestão, enquanto 23% preferem o empreendedorismo. O modelo tradicional de gestão, baseado em comando e controle, perdeu atratividade.
A nova geração de talentos busca um novo jeito de trabalhar, alinhado a propósitos pessoais, com mais flexibilidade, autonomia e um ambiente de trabalho emocionalmente saudável.
O desafio para as organizações é ressignificar a liderança. O líder do futuro não é um chefe, mas um facilitador. Sua missão é criar um ecossistema de colaboração que extraia o melhor de cada um. Isso implica em descentralizar a gestão, dar mais autonomia e fortalecer uma cultura organizacional de confiança.
Quando jovens talentos percebem que a liderança é uma missão de desenvolvimento conjunto e não um fardo, a aspiração por essas posições retorna.
A carreira também deixa de ser uma escada linear. O tradicional modelo de “carreira em Y” dá lugar a um mosaico orgânico de experiências, onde um profissional pode alternar entre papéis de especialista e líder, testando suas habilidades em diferentes projetos e contextos.
Para navegar nesse novo contexto, as habilidades mais cruciais são essencialmente humanas: a criatividade para ir além do que a máquina entrega, a inteligência emocional para construir vínculos, a curiosidade para explorar o desconhecido e, acima de tudo, a resiliência.
Em um ambiente de mudanças aceleradas, a capacidade de se adaptar, aprender e desaprender rapidamente é o que garantirá a nossa relevância.
Nada disso se sustenta sem uma base sólida de saúde mental no trabalho e diversidade. O estudo indica que 47% dos profissionais já tiveram a saúde mental impactada por questões relacionadas ao trabalho. Ambientes psicologicamente seguros não são apenas uma obrigação ética, mas um fator direto de produtividade e inovação.
O futuro do trabalho, portanto, será construído sobre um alicerce humano, onde a tecnologia nos potencializa, a flexibilidade nos engaja e um propósito claro nos une.




