“O mundo pós-pandêmico não perdoará as empresas que não incorporarem o ESG”

Cabe ao RH fomentar a discussão sobre ESG na liderança e fazê-la permear toda a organização, escreve Silene Rodrigues, diretora de RH da Adidas, em seu artigo para a Think Work Today

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ESG, de Environmental, Social and Governance (em português, ambiental, social e governança), são três letrinhas com um alcance imenso. À primeira vista, parece ser a união de três áreas distintas, mas elas estão totalmente conectadas e têm se tornado fatores críticos para a perenidade das organizações.

Arrisco dizer que o ESG de hoje é a responsabilidade social que falávamos décadas atrás. Com uma diferença: o mundo pós-pandêmico não perdoará as empresas que não incorporarem o tema de maneira recorrente em suas agendas e que não executarem com excelência as palavras bonitas que estão no papel. Se o propósito genuíno não for uma justificativa boa o suficiente para investir em ESG, vamos falar sobre sobrevivência.

Os consumidores já se moviam na direção do ESG antes da crise sanitária e agora, atingidos por uma pandemia sem precedentes, mudaram radicalmente seus hábitos de consumo. O mais visível foi a migração da compra física para a online, mas não para por aí. O novo coronavírus trouxe consigo o efeito colateral irreversível do “consumir consciente”.

Isso significa o ato de comprar produtos sustentáveis de marcas que investem em tecnologias e em medidas que preservam o meio ambiente, não desperdiçam energia, controlam suas emissões de carbono, têm relações íntegras com acionistas, colaboradores e fornecedores; contribuem com a comunidade, respeitam os direitos humanos, representam as minorias e são inclusivas, além de estarem em conformidade com as melhores práticas de administração de negócios e legislações locais e globais.

Muita coisa para se preocupar, não é? Pois bem, mas não há opção. Uma pesquisa do Mercado Livre na América Latina, realizada entre abril de 2020 e março de 2021, indica que um número crescente de consumidores brasileiros tem buscado produtos sustentáveis, que visam redução de impacto ou que geram benefícios socioambientais. Segundo o estudo, houve um aumento de 112% de compradores desses itens no Brasil, superando o crescimento registrado na região – de 104%.

A boa notícia é que é, sim, possível tornar o ESG uma prática real. E há exemplos práticos. O Brasil é o quarto mercado mundial no consumo de produtos de beleza – setor em que passei os últimos oito anos. Em 2020, mesmo com tantas incertezas frente à pandemia, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) registrou um crescimento de 5,8% nas vendas. Mas, segundo a Opinion Box, 40% dos clientes estão em busca de produtos “clean beauty”, aqueles que não prejudicam a pele nem o planeta, englobando aí os itens que não utilizam animais para testes.

Na indústria de materiais esportivos, o cenário não é diferente. A Adidas, por exemplo, escolheu a poluição dos mares e oceanos como tema e tem trabalhado globalmente para acabar com os resíduos de plástico, que estão acabando com a vida marinha. O compromisso da empresa é utilizar materiais reciclados na fabricação, desenvolver produtos que possam ser reciclados e incluir recursos renováveis e processos naturais na produção. Isso significa usar exclusivamente poliéster reciclado até 2024, reduzir as emissões de carbono em 30% até 2030 e ser totalmente neutra para o clima até 2050.

Ações como essas impactam também o engajamento dos colaboradores. E isso facilita o trabalho de gestão de pessoas, pois fica mais fácil atrair e reter talentos.

Porém, a contribuição estratégica da área de recursos humanos vai além. Cabe ao RH fomentar esse tipo de discussão na liderança e fazê-la permear toda a organização, incentivando inclusive parcerias com fornecedores que estejam seguindo o mesmo caminho. É possível desenvolver uma rede consciente na cadeia produtiva, levando a agenda de ESG para além dos muros da empresa.

É como na maquiagem: tudo começa com a base. Ou no futebol: o jogo inicia com o primeiro chute. Em ESG também: alguém tem de criar a fundação.

Se não for pelo propósito em si, que seja pela necessidade de sobrevivência. Se, no caminho, o meio ambiente, as pessoas e a comunidade forem beneficiados, então o objetivo foi cumprido. E de tanto praticar, em algum momento, o interesse genuíno pelo ESG estará instalado na cultura da organização.

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<strong>Silene Rodrigues</strong>
Silene Rodrigues

Diretora de recursos humanos na Adidas

Comments on “O mundo pós-pandêmico não perdoará as empresas que não incorporarem o ESG”

  1. Bacana demais o artigo. Obrigado por compartilhar.

  2. Soraya Bahde disse:

    Ótimo artigo, Silene.

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