Programa Ubuntu do Einstein desenvolve líderes mais inclusivos

A iniciativa envolveu 48 profissionais de 17 áreas da instituição, entre unidades hospitalares, centros de inovação, call center e segurança da informação

Desigualdades estruturais no mercado de trabalho, especialmente em cargos de liderança, seguem como desafio no Brasil. As pessoas negras correspondem a 56% do total da população brasileira. Contudo, elas ocupam apenas 4,7% dos cargos de liderança nas 500 maiores empresas do país, segundo uma pesquisa do Instituto Ethos.

Além disso, a taxa de desemprego é maior entre os negros. De acordo com o IBGE, em 2022, eram 11,1% de negros desempregados, contra 7,6% de brancos e 9,3% na média geral. 

No setor da saúde, essas disparidades também se manifestam: faltam representatividade, ambientes inclusivos e lideranças preparadas para promover a equidade em suas equipes.

Diante desse contexto, a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein, que emprega 10.200 profissionais, lançou o Programa de Liderança Ubuntu em setembro de 2023. Voltada à formação de lideranças inclusivas, a iniciativa envolveu 48 profissionais de 17 áreas da instituição, entre unidades hospitalares, centros de inovação, call center e segurança da informação. 

“Nosso objetivo foi formar profissionais da área da saúde com consciência crítica e com senso de responsabilidade e preparo para as questões de diversidade e inclusão no dia a dia”, afirma Santiago Nariño, especialista de ASG do Einstein.

O caminho

O Ubuntu surgiu a partir de uma parceria entre dois programas da instituição: o de  Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I) e o de Desenvolvimento de Liderança. O nome remete ao conceito africano presente em línguas como o zulu e o xhosa, que significa “Humanidade para com os outros”, ou “Eu sou porque tu és”. 

Santiago acredita que o termo traduz bem a proposta do projeto. “Ubuntu faz todo o sentido, porque queremos criar um ambiente de trabalho onde todos possam florescer”, afirma. 

Com duração de nove meses, o projeto contou com três encontros presenciais de oito horas e dez sessões virtuais mensais de noventa minutos. Além disso, incluiu mentorias individuais com especialistas. A seleção dos líderes se deu com base em dois critérios: interesse prévio no tema e identificação de áreas com maior necessidade de avanços em inclusão. 

O conteúdo das aulas – e-books, vídeos e palestras – abordou temas como psicologia da mudança, comunicação empática, racismo estrutural, vocabulário inclusivo, gestão participativa, planejamento de carreira para grupos minorizados e como lidar com situações de discriminação de pacientes e funcionários. Ao final, os participantes criaram um e-book com ferramentas práticas e recomendações, compartilhado com toda a instituição. 

O Ubuntu teve ainda a atuação de consultoras negras especializadas em equidade, como Elisangela Martins Queiroz, Meire Augusta Celestino Amaro e Jacque Torres. Esta última, é uma das idealizadoras do programa. Os grupos de afinidade da instituição, como a Rede Amalgamar, também promoveram palestras e intervenções ao longo do projeto. 

Resultados

Entre os principais impactos, o Einstein registrou aumento da consciência entre os participantes sobre raça, racismo e inclusão. Uma avaliação pré e pós-programa, adaptada da metodologia Anti-Racist Leadership Self-Assessment Framework (Expecting Justice), indicou avanços nas cinco dimensões analisadas: conhecimento fundamental, comunicação e recursos emocionais, consciência racial, transformação da teoria em ação e motivação.

Além de passarem pela formação, as lideranças foram desafiadas a desenvolver de um a dois projetos aplicáveis às suas realidades.

Dois exemplos ilustram os resultados práticos do programa. Um grupo de secretárias da instituição, por exemplo, organizou-se para incentivar a contratação e promoção de mulheres negras na função,conscientizando os médicos da importância do tema. 

Outro projeto criou estratégias para aumentar a presença de médicos negros contratados como pessoa jurídica na instituição, ampliando o relacionamento com universidades de medicina que historicamente têm mais estudantes negros. 

O NPS (Net Promoter Score) do programa foi de 80, com comentários positivos sobre ganhos como fortalecimento da escuta, ampliação da consciência crítica, mais habilidade para lidar com adversidades no dia a dia e promover ambientes seguros.  

THINK & DO

As dicas do Hospital Albert Einstein para as empresas que desejam criar projetos de lideranças inclusivas:

  • Crie ferramentas. Somente conscientização e letramento não vão mudar a realidade. Para transformar processos e protocolos, é preciso pensar em ferramentas de gestão para as lideranças e equipes. 
  • Pense no dia a dia. Compreenda em profundidade a rotina das lideranças e como elas lidam com questões de inclusão na prática, de modo a desenhar com assertividade seu projeto. 
  • Foque em quem mais precisa. Como no Einstein, é possível abrir vagas para quem tiver interesse, mas sem deixar de identificar quais áreas mais necessitam avançar em inclusão.