Projeto Alfabetizar para PertenSer fortalece autonomia, amplia oportunidades de carreira e promove inclusão real de profissionais surdos da companhia
A contratação crescente de funcionários surdos pela Schulz, empresa do ramo de peças automotivas e compressores de ar de Joinville (SC), trouxe um desafio: muitos deles não tinham o português como segunda língua e enfrentavam dificuldades para compreender instruções escritas, como comunicados internos e normas da empresa. Isso comprometia tanto a segurança no trabalho quanto o desempenho nas suas áreas.
A situação também impactava o desenvolvimento profissional. Sem domínio da leitura e escrita, era difícil para o grupo participar de treinamentos, acompanhar processos administrativos e avançar na carreira.
Ao mesmo tempo, a empresa identificou que os demais funcionários ouvintes precisavam de mais letramento em Libras, a Língua Brasileira de Sinais, para que a comunicação inclusiva acontecesse em duas vias.
Dessa combinação entre diagnóstico e propósito, nasceu em 2024 o projeto Alfabetizar para PertenSer.
O caminho
Para dar vida ao projeto, a Schulz destacou a professora surda Juliana Cipriano, funcionária da empresa e referência na comunidade surda de Joinville. O trabalho começou com testes para avaliar o nível de leitura e escrita de cada participante.
Com base nos resultados, foi formada a primeira turma de oito pessoas, com aulas realizadas durante o expediente, em uma sala adaptada dentro da própria companhia.
As aulas foram estruturadas em 16 encontros, abordando desde ortografia e construção de frases simples até o uso de ferramentas digitais, incluindo o ChatGPT. A metodologia foi totalmente adaptada ao contexto dos participantes e incorporou suas sugestões de formatos e conteúdos.
“Após a primeira turma, estamos fazendo alterações para as próximas aulas, uma vez que cada pessoa agora tem uma necessidade mais específica, e durante o dia a dia de trabalho surgem novas demandas”, conta Paula Rodrigues Nascimento, gerente sênior de pessoas e cultura da empresa, que exemplifica: “Uma pessoa precisa desenvolver mais a escrita para e-mails, enquanto outra para usar em tarefas com notas fiscais”.
A iniciativa complementa outra frente de trabalho liderada pela professora Juliana: desde 2022, a empresa passou a formar funcionários ouvintes em Libras. Em 2025, a Schulz iniciou a nova turma em nível básico, com 25 participantes, e duas turmas intermediárias, com 15 alunos cada.
Na plataforma de educação corporativa da empresa, o curso de Libras também está disponível aos dependentes dos funcionários, ampliando o alcance da inclusão.
Resultados
Segundo Paula, a iniciativa já trouxe impactos concretos na comunicação, no clima organizacional e na valorização dos profissionais surdos.
“Percebemos grandes avanços na comunicação do dia a dia entre as equipes. Com as duas frentes – aulas de português para os profissionais surdos e aulas de Libras para os diversos interessados – a comunicação ficou mais fluida e assertiva, além de inclusiva”, destaca.
O engajamento foi total: todos os participantes da primeira turma concluíram o curso, ganhando mais segurança para se comunicar com colegas e lideranças. A compreensão de comunicados internos e normas operacionais aumentou significativamente, reduzindo ruídos e falhas de interpretação.
Os efeitos positivos também aparecem no sentimento de pertencimento. “Os funcionários surdos agora se sentem mais valorizados e integrados. E entregam um trabalho ainda melhor”, afirma a gerente.
Desde 2022, 234 funcionários concluíram o curso básico de Libras e 47 o nível intermediário. Aqueles que têm contato mais direto com colegas surdos já chegaram ao nível avançado.
“O plano é continuar com o desenvolvimento de carreira desses profissionais surdos. Queremos apoiar os que ainda não têm o ensino médio para que finalizem no EJA [Educação de Jovens e Adultos] e, aqueles que já concluíram, para que consigam uma formação em cursos técnicos”, completa Paula.
THINK & DO
Dicas da Schulz para criar projetos de diversidade que funcionam:
- Escute. Ouça os funcionários com deficiência. Pergunte o que eles realmente precisam e desejam. Evite decisões baseadas apenas em suposições — crie canais abertos para troca constante.
- Dê continuidade. Projetos de diversidade não devem parar na primeira turma ou nível. Cursos para pessoas surdas, por exemplo, precisam evoluir com novas demandas e comunicação ativa. Acompanhe de perto e ajuste conforme os funcionários crescem.
- Apoie com presença. As lideranças devem abraçar o projeto, garantindo que suas equipes possam participar dos treinamentos. Mais do que permitir, é preciso incentivar, acompanhar e apontar caminhos para que a inclusão seja parte da cultura.
