No futuro do trabalho, ninguém deveria ser deixado para trás

Ao prever o futuro do trabalho baseando-se em opiniões, e não em fatos, o executivo de RH pode influenciar o que está por vir, afirma Patrick Schneider, Talent Manager na FMC

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Pensar o futuro do trabalho é um dos temas que mais tem ocupado espaço nos debates entre profissionais de recursos humanos. Em parte, isso ocorre por conta das mudanças impostas desde o começo de 2020 pela pandemia da covid-19.

Porém, os debates dividem-se majoritariamente entre as transformações tecnológicas que poderão roubar empregos dos humanos e o formato que deverá dominar o mercado de trabalho no pós-pandemia. Nesse segundo ponto, especula-se sobre a possibilidade de o escritório como o conhecemos entrar em extinção.

Como gestor de RH, eu também não passo imune ao tema. Mas desde 2018 decidi trilhar um caminho que se distancia do futuro dos escritórios e volta-se ao trabalho como forma de desenvolvimento sustentável de nossa espécie.

O fator “trabalho” foi o maior combustível para o desenvolvimento do ser humano ao longo do tempo. Por meio dele, construímos comunidades, progredimos no campo científico, evoluímos na construção de uma sociedade pautada pela transformação e adaptação do universo natural para um ambiente novo, com funcionalidades que atendem às mais variadas expectativas e necessidades.

Será que todas as pessoas inseridas na sociedade conseguem participar ativamente dessa transformação? E será que essas transformações atendem suas expectativas e necessidades?

Posso responder, sem medo de errar, que não.

Aqui entra um dos componentes de maior responsabilidade desta temática: o costume de prever o futuro baseando-se em opiniões, e não em fatos.

Quando um executivo de RH afirma que uma profissão deixará de existir, baseando-se na crença e não em dados, ele pode influenciar o que está por vir.

Não pela realização de um futuro melhorado, mas, sim, por exercer influência sobre tomadas de decisões relacionadas a esse futuro.

Exemplifico. O debate em torno da Indústria 4.0 leva a entender que a automação industrial é uma realidade irreversível e que, com isso, postos de trabalho serão suprimidos em uma velocidade nunca vista. Um jovem, ao ler a respeito na internet, tomaria a decisão de se inscrever em um curso técnico de competências industriais? Por que tornar-se especialista em solda, usinagem ou mecânica industrial se isso será executado por robôs em um período próximo?

A verdade é que, embora essas automatizações sejam possíveis, o nível de investimento demandado para tal transformação é enorme. O que faz com que empresas afetadas por questões cambiais (como é o caso de boa parte do parque industrial brasileiro) adiem a decisão de virada de chave. Contudo, enfrentam uma escassez de mão de obra técnica poucas vezes vista. Hoje, o Senai tem dificuldade de oferecer um número mínimo de aprendizes exigidos pelas cotas.

De outro lado, com quase nenhuma formação de base orientada à tecnologia, uma parcela importante da população brasileira vai ficando à margem das novas competências exigidas pelas empresas digitais.

O mesmo acontece no setor logístico, no qual dez anos atrás se afirmava que caminhões nos Estados Unidos seriam autônomos. Isso não ocorreu, mas a especulação fez com que muitas pessoas desistissem de investir neste segmento e hoje a cadeia logística como um todo tem enfrentado as consequências.

O ponto central é que a totalidade da sociedade não é representada dentro das empresas, muito menos nos ambientes de tomada de decisão empresarial. Ao afirmarmos que o futuro dos escritórios será virtualizado, será que estamos olhando para o ambiente social ou apenas reforçando a presença dominante no mercado?

Somente agora estamos rompendo a inércia secular da participação feminina em cargos de gestão e vendo a pluralidade de etnias, de identidade e de manifestações de gênero nos diferentes ambientes organizacionais. Também é nova a consciência de que deficiência é um ponto de vista.

Percebo este momento como uma nova era de oportunidades exponenciais, pautada pela colaboração e pelo impacto positivo das empresas nas comunidades em que atuam.

Para que o futuro do trabalho possa, de fato, existir é importante que o ser humano seja colocado no centro da discussão, sem esquecer que o labor é uma condição humana e um direito fundamental de todas as pessoas. 

A área de recursos humanos precisa gerar impacto positivo na sociedade em que está inserida e não somente na organização para a qual trabalha. Um ponto de partida é moldar um futuro em que ninguém fique para trás − independentemente dos marcadores sociais considerados excludentes.

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<strong>Argentino Oliveira Neto</strong>
Argentino Oliveira Neto

Chief Human Resources Officer na Suzano.

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