O que não muda quando tudo parece mudar

Patrick Schneider reflete sobre pensamento crítico no trabalho, IA e vaidade corporativa em tempos de respostas rápidas

Logo Today

Parar por um tempo e se permitir um sabático ao longo da jornada. Este foi, sem dúvida, o grande aprendizado do último ano da minha carreira.

Entrei no doutorado, retomei com mais afinco a atividade de pesquisador, ampliei meu papel como professor e passei a colaborar com empresas como consultor, a partir de convites que me surpreenderam. Nem CNPJ eu tinha quando decidi pausar a carreira para estudar.

E este tem sido um período muito especial, em vários sentidos. Talvez um dos principais motivos seja a possibilidade de me reconectar com práticas das quais a jornada executiva, aos poucos, vai nos afastando.

Agora, voltei a ler com regularidade. No caminho para a Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, leio um romance por semana, sempre no livro físico. Também tenho escrito obsessivamente, como deve ser quando alguém pretende sustentar a alcunha de “escritor”. Com isso, consegui criar rotinas que apenas este tempo tem me permitido.

Ao restabelecer antigas rotinas e incorporar novas práticas, comecei a me perguntar como será meu retorno a uma agenda mais frenética. Ou, talvez, a pergunta mais difícil: quais concessões serão necessárias?

Foi dessa inquietação que nasceu este ensaio: O que muda por conta do mundo e o que muda porque deixamos mudar?

Vivemos hoje uma avalanche de informação. Somos expostos, o tempo todo, a conteúdos que parecem querer provar que não sabemos, não conhecemos e não dominamos o suficiente. Também observamos movimentos da sociedade que, em vez de aproximar, insistem em apartar.

O baixo letramento tecnológico, por exemplo, não é uma novidade. Quem nunca recorreu ao Google para descobrir como formatar uma página no Word ou encontrar uma fórmula no Excel? Mesmo quem domina bem essas ferramentas sabe que sempre há espaço para dúvida.

Nos tempos atuais, esse baixo letramento se amplifica. Ganha uma proporção desmedida na forma como avaliamos o que sabemos e o que não sabemos. Mesmo quem usa a inteligência artificial (IA) como se fosse o Google, apenas para descobrir a fórmula do Excel, corre para adicionar no currículo que tem experiência em IA. Os mais vaidosos dizem que a dominam.

E este é outro elemento que não mudará: a vaidade humana à frente do baixo letramento.

Precisamos fazer uma pausa e pensar com mais cuidado sobre o que, de fato, nos empurra para esse caminho perigoso – o de deixarmos de pensar por conta própria e passarmos a viver de forma mais robotizada, repetitiva e, em certa medida, automatizada.

Aposentei o Kindle no ano passado. A decisão veio depois do incômodo de descobrir quantas pessoas haviam grifado, antes de mim, o trecho que eu estava lendo. Eu parava para tentar entender o que elas tinham visto ali e que eu talvez não tivesse percebido. Aquilo me incomodava porque interrompia minha leitura.

Depois, percebi que, ao aumentar o tamanho das letras, também tirava a página de seu contexto inicial. A diagramação se perdia e, com ela, talvez parte do ritmo proposto pelo autor.

Retomei o livro impresso, um hábito que sempre teve memória afetiva para mim, desde minha distante coleção Vaga-Lume. A partir desse gesto, comecei a me perguntar quais outros hábitos fui estabelecendo em nome das comodidades da vida, não necessariamente das facilidades.

Foi assim que mudei minha relação com o Waze, o Grammarly, a Netflix e, por fim, com os modelos de linguagem de IA (LLMs).

Percebi o quanto o Perplexity e o Claude estavam facilitando minha vida a ponto de, às vezes, me sonegarem o benefício da dúvida – tão importante quando estamos elaborando algo. Desativei dois agentes que faziam “um pouco mais” do que curadoria e voltei a triar, por conta própria, parte dos conteúdos com os quais tenho lidado nas últimas semanas.

O estalo veio do livro O mesmo de sempre: um guia para o que nunca muda, de Morgan Housel. A obra trata justamente daquilo que atravessa o tempo, resiste à adaptação forçada e permanece, mesmo quando tudo ao redor parece exigir mudança.

Entendo que estamos sendo compelidos a mudar o modo como fazemos as coisas. Mas será que estamos perguntando por que queremos mudar?

Trabalhando com RH+IA como professor e facilitador dessa conexão com empresas, minha primeira pergunta é sempre esta: por que você precisa usar IA no seu dia a dia?

Não questiono a adoção desse tipo de tecnologia, pelo contrário. Tenho orgulho de promover há anos essa conexxão entre recursos humanos e inteligência artificial. Mas a pergunta nos obriga a sair da lógica do “grifo no Kindle”. Será que todo mundo que leu aquele parágrafo grifado foi, de fato, tocado por algo ali? Ou apenas destacou o trecho em busca de pertencimento?

Quando faço essa provocação, recebo respostas como: “minha gestão ou a matriz está me obrigando”; “todo mundo está usando”; ou ainda: “me sinto jurássico porque não entendo nada do tema”.

Recentemente, conduzi uma pesquisa em grupos de RH sobre o uso da IA na gestão de pessoas, com cerca de 300 respondentes. Para minha surpresa, um terço das lideranças de recursos humanos afirmou não ter feito nenhuma formação em IA e não pretender fazê-la nos próximos 12 meses.

Ao mesmo tempo, quando perguntadas sobre a maior cobrança dentro das empresas em que trabalham, essas lideranças colocaram “IA” em segundo lugar, atrás apenas de “elevar a eficiência da área”, uma resposta que, na minha leitura, está intimamente ligada ao próprio tema da inteligência artificial.

A utilização de IA passa necessariamente por esse lugar do “porquê”: por que fazemos o que fazemos? O que deveríamos deixar de fazer? O que deveríamos fazer diferente? Só depois dessas respostas deveríamos entrar no campo da tecnologia.

Isso não significa ignorar que alguns movimentos não voltarão a acontecer na sociedade, tampouco significa tornar-se ludista. Aliás, a leitura de Rebels Against the Future, de Kirkpatrick Sale, mudou muito a ideia que eu tinha sobre os trabalhadores que enfrentaram as tecelagens no início do século XIX. A questão, ali, não era simplesmente a tecnologia, mas a desconsideração do saber humano. Isso gerou certo déjà-vu deste lado de cá.

Ainda que a leitura de “Rebels Against the Future” de Kirkpatrick Sale tenha me feito mudar muito do conceito que eu tinha desta turma que enfrentou as tecelagens no fim da primeira década do século XIX, mostrando que não tinha nada a ver com a tecnologia, mas sim, a desconsideração do saber humano, algo que gerou um certo deja vu, deste lado de cá, confesso.

Entendo que a encruzilhada vivida deve ser enfrentada com vigor, mas sem desconectar hábitos, habilidades e, principalmente, saberes humanos coletados ao longo de uma vida.

Foi assim que chegamos até aqui. E acredito que será assim que evoluiremos a partir deste ponto.

Para isso, precisamos ativar a consciência de modo profundo, sair do automático e liderar o movimento em marcha. Enquanto tratarmos a tecnologia apenas como uma promessa futurista de conveniência, ficaremos presos a um mundo que evolui em marcha lenta.

Quando ouvimos os pedidos feitos em larga escala aos modelos de linguagem de IA, percebemos que estamos lutando contra algo que talvez não devesse mudar no tempo. Por isso, manter-se em desenvolvimento, curioso e empático são, para mim, atitudes que nunca deveriam mudar, como propõe Morgan House.

A título de curiosidade, um dos pedidos mais frequentes feitos por usuários de modelos de linguagem é: “por favor, com uma linguagem humana, faça…”. Fico imaginando se a IA se pergunta que tipo de tom humano deveria utilizar em um planeta habitado por mais de 8 bilhões de pessoas, umas diferentes das outras.

 

Patrick Schneider

Executivo de RH, escritor e pesquisador na temática futuro do trabalho.

logo-today
Sua conexão com os principais RHs do país. Assine grátis

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site is protected by reCAPTCHA and the Google Privacy Policy and Terms of Service apply.