Para Patrick Schneider, em meio às mudanças aceleradas no trabalho, o RH precisa encarar uma pergunta desconfortável: quem somos nós?

Participo de poucas comunidades de recursos humanos. Com quase 25 anos na área, sendo 15 em posições executivas, sigo seletivo.
Hoje, atuo como pesquisador vinculado à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP); tenho dois livros publicados e outros a caminho. Minha reflexão tem sido guiada pelos tempos que vivemos no trabalho e pela defesa do papel estratégico do RH, embora, muitas vezes, eu tenha me sentido um peixe afogado em meio ao ecossistema.
Essa atitude seletiva aparece nas interações que escolho manter em grupos executivos de RH. Ali, procuro propor reflexões que vão além da agenda urgente da área.
Desde 2021, estudo o uso de inteligência artificial (IA) no RH. Lembro da sensação de ver nosso primeiro chatbot, desenvolvido internamente, responder a uma pergunta simples de um funcionário. Por um instante, seis pessoas em volta da tela de WhatsApp se sentiram como se estivessem diante do fogo pela primeira vez.
A partir dali, automatizamos chamados e, em um ano, tínhamos um ecossistema de atendimento responsivo, capaz de lidar com demandas complexas, inclusive de interpretação tributária. Reduzimos custos e elevamos em 9 pontos percentuais o NPS do atendimento do departamento de serviços compartilhados.
O ganho foi de eficiência, mas também de protagonismo para o time. Tudo isso nasceu de um curso de Python que decidi fazer durante o confinamento da covid-19.
Esse interesse pela IA me levou a aprofundar a pesquisa sobre o futuro do trabalho. Estudo a tríade trabalho, sociedade e futuro desde 2018. Entendo a tecnologia como produto dessa relação: não como protagonista, mas como meio.
Esse olhar me aproximou da greve que paralisou por meses a cadeia produtiva do audiovisual nos Estados Unidos, em 2023, em meio à resistência ao avanço da IA na indústria criativa. Na época, comparei o movimento ao ludismo ou, para os apaixonados por ficção científica, a uma batalha entre a Skynet e a raça humana.
Lembro da minha empolgação ao acompanhar as teses, as contradições, os avanços e os recuos das negociações. Por isso, não me pareceu estranho propor esse debate em um dos grupos de RH de que participo.
Para minha surpresa, ao escrever sobre como eu interpretava aquela disputa, uma das primeiras respostas foi: “Quem fala sobre sindicato está cinquenta anos atrasado”. Vieram muitas reações de apoio. Corações e palmas encerraram o “não debate”.
Dois anos depois, propus uma enquete rápida sobre uso de IA, sandbox e governança no mesmo grupo. O silêncio foi sepulcral.
A crise de identidade do RH começa no silêncio
Não condeno ninguém pela primeira nem pela segunda reação. Mas me pergunto: em um momento em que o RH vê seu valor ser questionado, é atropelado por decisões das quais não participa e assiste ao enfraquecimento de agendas centrais, sobre o que a área quer falar?
Penso no recuo da pauta de diversidade, equidade e inclusão (DEI), no retorno compulsório ao presencial e, mais recentemente, na fala do CEO da Uber à revista Fortune, ao defender que profissionais trabalhem fora do expediente e respondam e-mails aos sábados e domingos. Tudo isso ocorre enquanto, só no Brasil, os afastamentos ligados à saúde mental no trabalho mais do que dobraram em uma década.
No último ano, quando pausei a carreira executiva para concluir o primeiro ano do doutorado em Gestão da Inovação e Sustentabilidade na Universidade de São Paulo, conversei com mais de 45 gestores de recursos humanos. Quase invariavelmente, os relatos giravam em torno de cansaço, esgotamento, desgosto e do desejo de buscar novos voos, de preferência, longe da carreira corporativa.
Talvez tenhamos nos afastado demais da nossa essência: a capacidade de olhar para a sociedade, entender o que está em curso, traduzir isso para dentro dos nossos ambientes de influência e conectar ecossistemas complexos. Talvez o que estejamos vivendo agora seja uma crise de identidade do RH.
Este não é um texto de crítica ao RH, menos ainda aos profissionais que, dia após dia, veem seus orçamentos serem solapados. É, antes, um convite à reflexão.
Como estamos tratando uns aos outros dentro da área? Que tipo de apoio temos dado a iniciativas que tentam enaltecer nosso papel e que demonstram perceber os passos que damos no ambiente de trabalho? E, afinal, quem somos nós hoje?
Quando a tecnologia faz a pergunta que o RH evita
Curiosamente, essa pergunta não partiu de mim, mas do experimento mais curioso a que tive acesso nos últimos 25 anos.
Contratei o pacote da Delphi.ai, uma aplicação de IA generativa que entrega uma espécie de clone digital de você por cerca de 300 dólares por mês.
Após uma breve apresentação, começou o treinamento com aquela quase rede neural. Vieram cinco perguntas introdutórias sobre biografia, portfólio, estrutura familiar e contextos socioeconômico e geopolítico.
O jogo mudou na sexta pergunta: “Para que eu possa ser um clone completo, me responda: quem é você?”
Mesmo com a terapia em dia, tive dificuldade para responder.
A experiência de interagir com um deep learning dessa natureza foi muito interessante. Mas o maior aprendizado veio da pergunta mais incômoda de todas: Quem somos nós, RH?
Não queremos falar sobre sindicato, por parecer retrógrado. Tampouco queremos falar seriamente sobre IA, talvez por parecer avançada demais em um mundo em que usamos apenas WhatsApp, lanterna e despertador em um smartphone.
Ainda assim, a pergunta que tenho levado aos times de recursos humanos é a mesma que me foi feita pela Delphi-2398 e que me silenciou por 26 horas.
Talvez este seja um momento de união, de sentarmos juntos e expormos nossas fragilidades. Esse pode ser um movimento desconfortável, capaz de nos desnudar por um instante.
Mas talvez seja justamente isso que garanta um futuro mais promissor para uma área que adotou, e, com a mesma velocidade, abandonou, diversas agendas, afastando-se da própria essência e da sua razão de existir.
Como estamos lidando com os memes sobre a área? Como estamos reagindo a vlogs de pessoas que pedem demissão e exibem a satisfação desse gesto, expondo grandes marcas, muitas delas multinacionais? Como estamos tratando nosso próprio silêncio, nosso “apagamento”, em meio à ocupação dessa função por profissionais de TI, áreas institucionais e projetos?
Para responder a essas perguntas, precisamos fazer outra ainda mais importante: Como estamos lendo o contexto do trabalho hoje?
O momento não é de mergulhar na cultura do evento, mas de aprofundar os eventos da cultura.
Profundidade em nós mesmos. Este é o meu mais sincero convite.
Com carinho, de alguém que enxerga você.



