O excesso digital está mudando nosso cérebro. Precisamos voltar ao analógico

Robson Gonçalves explica como o excesso digital altera o funcionamento do cérebro — e por que recuperar hábitos analógicos pode melhorar foco, criatividade e bem-estar

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Somos seres analógicos tentando viver em um mundo digital. A tese é de Miguel Nicolelis, um dos mais respeitados neurocientistas brasileiros. 

Mas há algo mais em jogo. Os padrões digitais estão colonizando nosso mundo mental e definindo quem somos. Chamo esse fenômeno de “Pandemia de Extroversão”: uma pressão sistêmica por performance ininterrupta, na qual conexões substituem relações e nossa autoestima passa a depender de métricas algorítmicas — likes, seguidores, compartilhamentos e afins.

No ambiente corporativo, essa hiperconectividade é vendida como agilidade, produtividade e até como a magia que tornou possível o home office.

Sob a lente da neurociência e da psicanálise, porém, estamos diante de um processo de erosão de nossa autonomia como indivíduos. Mais do que isso: os excessos dessa extroversão digitalizada prejudicam processos neuronais essenciais à autorreflexão, à criatividade e à saúde mental.

Depois de termos superado o primeiro quarto do século XXI, algo já está claro: a melhor forma de conciliar nossa vida digital com bem-estar e alta produtividade é fazer o caminho de volta e recuperar o espaço perdido pelo analógico, usufruindo o melhor dos dois mundos.

O sequestro da atenção e o antagonismo funcional

Avanços recentes da Neurociência demonstram que nosso cérebro opera em redes que interligam áreas com funções distintas. Algo semelhante ao que ocorre em empresas organizadas em arquiteturas matriciais.

Mas o que faz o cérebro quando não estamos ocupados com nada em especial?

Muita coisa, na verdade. Em momentos de relaxamento e ócio aparente, quando brincamos com nossos pets ou folheamos as páginas de um álbum qualquer, seja de fotografias seja de selos, ativamos a Rede Neuronal Padrão (DMN, Default Mode Network).

Por outro lado, quando estamos focados em telas, notificações e tarefas externas, ativamos a Rede de Atenção Executiva (DAN, Dorsal Attention Network). Trata-se da rede especializada na atenção voluntária, orientada a objetivos e estímulos externos — o “foco”, propriamente dito.

O problema é o chamado “antagonismo funcional”: quando a DAN está hiperestimulada, a DMN é suprimida.

Porém, a DMN está longe de representar um estado de “cérebro desligado”, como se pensava anos atrás. Pelo contrário, ela envolve áreas nobres, como o córtex pré-frontal medial e o cingulado posterior.

É nessa rede que ocorrem a cognição social, a prospecção do futuro e a integração da identidade. Com a DMN construímos nossa autoimagem — o que António Damásio chamou de “sentimento de si”. E também é nela que estabelecemos conexões entre temas e fatos aparentemente desconectados. É na DMN que surgem os insights, as células básicas da inovação.

Além disso, a DMN funciona como nosso laboratório pessoal de julgamento moral e empatia. Sem o silêncio típico da despreocupação e das atividades analógicas, a reflexão ética tende a ser substituída pela reação impulsiva do engajamento.

Ao mesmo tempo, quando nosso sentimento de identidade passa a se formar a partir do espelho digital das redes sociais e plataformas, direcionamos nossa energia de forma quase obsessiva para o “mundo lá fora”, para aquilo que é metrificável de forma rápida e impessoal. 

Esse é o modo de atuação da DAN, em sua busca contínua por avaliar o julgamento alheio e por estímulos externos — algo típico da chamada “extroversão”.

Mas, em linha com Jung, não devemos confundir extroversão com desinibição. Em termos psicanalíticos, essa atitude se refere à busca predominante do contato com o mundo externo, à valorização das reações dos outros, à necessidade de inserção e aprovação sociais.

Dicas de hábitos analógicos

Defender o retorno ao analógico não significa sugerir a saída das redes sociais e o cancelamento dos canais de streaming. Isso seria anacrônico. Significa reconhecer que nossos hábitos alteram a forma como o cérebro funciona. E, como ele é uma máquina analógica, atividades off-line são fundamentais para garantir seu melhor desempenho no curto e no longo prazo. 

Aqui vão algumas sugestões nesse sentido: 

  • Raciocínio manuscrito e deep work: Projetos complexos devem começar no papel. A escrita motora recruta áreas corticais mais amplas do que a digitação, forçando o cérebro a uma organização mais profunda do que a conseguida com o teclado. No computador, a tentação do “alt-tab” ou a simples visão de um ícone de notificação fragmenta o foco.
  • Caminhadas de desacoplamento: O movimento físico sem dispositivos (fones ou smartphones) favorece a operação da DMN. É nesse espaço que as sensações corporais — os chamados marcadores somáticos — se traduzem em intuições estratégicas valiosas. Os excessos da vida digital desviam nossa atenção das mensagens geradas pelo corpo, fundamentais para um raciocínio mais rico e contextualizado.
  • Leitura profunda (deep reading): O consumo digital treina o cérebro para o scanning superficial. A leitura de livros físicos estabiliza a atenção e reduz a dispersão e a sobrecarga cognitivas, permitindo a imersão necessária para o pensamento baseado na DMN. A leitura de uma obra de ficção, por exemplo, não exige tomada de decisão nem está submetida às métricas algorítmicas. 
  • Journaling e governança pessoal: O hábito de registrar reflexões diárias à mão fortalece a operação da DMN. É nesse espaço que a gestão de si mesmo deixa de ser um indicador gerado por uma multidão de desconhecidos e se torna um exercício de autonomia autorreflexiva. E sem autorreflexão não pode existir empatia.

A cultura humana é pendular. Mas esse pêndulo nunca é o mesmo quando retorna. Por isso, a volta ao analógico não é um retrocesso, mas uma tentativa de corrigir os excessos da “Pandemia de Extroversão”.

O analógico é o lugar onde cada um de nós se reencontra e se resgata. E, em um mercado saturado de inteligência artificial e automação, a capacidade de ser profundamente humano e autônomo já é uma fonte de alto desempenho – e de qualidade de vida.

Foto de Robson Gonçalves

Robson Gonçalves

Economista comportamental e neuropsicanalista, coordena os cursos de Neurobusiness da Fundação Getulio Vargas. Na Think Work, escreve sobre neurociência, liderança e relações humanas nas organizações.

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