Janeiro Branco o ano inteiro: saúde mental como cultura organizacional

Marcela Lazaro examina o papel do RH na transformação do Janeiro Branco em uma prática contínua de cuidado com a saúde mental no trabalho

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Pessoas e organizações se mobilizam para conscientizar a sociedade sobre a importância de cuidar da saúde mental há pelo menos uma década.

Em 2023, a Lei Federal nº 14.556 oficializou o Janeiro Branco. Mais do que uma campanha associada a um mês específico, o movimento se consolidou como um convite permanente para falar sobre saúde mental no trabalho e o impacto das condições organizacionais no bem-estar das pessoas.

Todos os anos, o tema mobiliza pessoas, profissionais e instituições a abrir espaço para o diálogo, ampliar a conscientização e influenciar políticas públicas voltadas ao cuidado emocional.

Mas a pergunta central permanece válida em qualquer época: na sua empresa, essa conversa faz parte da cultura ou aparece apenas como uma ação pontual?

Em 2026, o tema Paz | Equilíbrio | Saúde Mental reforça o convite à essa reflexão. Os post-its, símbolo escolhido para representar a campanha, ajudam a traduzir essa mensagem. Antes associados à pressa, à cobrança e às listas intermináveis de tarefas, eles passam a carregar mensagens de cuidado, bem-estar e qualidade de vida.

A mudança simbólica do “não posso esquecer” para o “não posso me abandonar” reflete o momento em que vivemos. No trabalho, lembramos prazos, metas e entregas com precisão. Mas, com frequência, negligenciamos o próprio limite.

Os post-its deixam de sinalizar apenas tarefas e passam a lembrar algo essencial: nenhum resultado justifica o adoecimento — nem o avanço silencioso do burnout, cada vez mais presente no ambiente corporativo.

Janeiro Branco em um cenário mais complexo

As tendências para recursos humanos em 2026 mostram que a área de pessoas está no centro de uma transformação acelerada. Cresce a demanda por habilidades humanas, como empatia, inteligência social e capacidade de adaptação. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta de apoio e passa a influenciar decisões estratégicas.

Nesse contexto, o RH amplia sua responsabilidade. Mais do que implementar processos, passa a influenciar diretamente a experiência de trabalho. A questão é se a tecnologia está sendo usada para melhorar a vida das pessoas ou apenas para intensificar o ritmo e a pressão por resultados.

A convivência entre cinco gerações, os novos formatos de trabalho e a pressão por desempenho criam um ambiente mais complexo e, muitas vezes, mais solitário.

A solidão no trabalho, as dúvidas sobre modelos presencial, remoto ou híbrido, e as mudanças regulatórias, como a atualização da NR-1, reforçam o alerta de que saúde mental não pode ser tratada como ação pontual ou apenas como exigência legal.

O RH passa a assumir um papel decisivo na prevenção do adoecimento emocional, no redesenho de benefícios e no desenvolvimento de lideranças mais preparadas para lidar com pessoas. O risco é tratar o tema apenas quando ele já se tornou um afastamento.

Mas será que o cuidado emocional está realmente no centro das decisões ou só aparece quando o problema virou afastamento?

Como o RH pode promover saúde mental de forma contínua

Promover saúde mental começa com a criação de ambientes psicologicamente seguros – espaços onde as pessoas se sintam à vontade para falar, errar, pedir ajuda e expressar emoções. Mas segurança psicológica não se constrói apenas com discurso.

Para que esse ambiente exista, as lideranças precisam estar preparadas. Reconhecer sinais de sobrecarga, acolher conversas difíceis e agir com empatia no dia a dia faz a diferença. Afinal, muitos líderes foram promovidos pelo resultado que entregam, mas nunca preparados para lidar com pessoas.

As políticas de recursos humanos também precisam fazer sentido na prática. Flexibilidade, gestão saudável da jornada e clareza nos processos de afastamento e retorno ao trabalho não podem ser exceção. Programas de apoio psicológico são relevantes, mas inuficientes quando as causas do adoecimento permanecem.

O RH, como agente educador, exerce um papel decisivo na formação de lideranças mais conscientes e empáticas. Afinal, a experiência do funcionário é moldada, sobretudo, pela relação com seu gestor direto. E isso não se transforma com uma campanha anual.

A comunicação interna completa esse ciclo. Uma linguagem respeitosa, coerente e humana fortalece vínculos e legitima conversas difíceis. Mas é preciso consistência:incentivar o autocuidado sem revisar metas, prazos e cobranças que adoecem gera uma contradição difícil de sustentar.

De campanha pontual a cultura organizacional permanente

Para que o Janeiro Branco não seja apenas mais um item isolado no calendário corporativo, as áreas de RH e Saúde e Segurança precisam precisam incorporá-lo à rotina. Isso exige coragem para rever processos, abrir conversas difíceis e, principalmente, sustentar o tema ao longo do ano. 

Transformar campanhas em ações contínuas, integrar saúde mental às metas do negócio, preparar líderes e ressignificar prazos e cobranças são caminhos possíveis. Mas tudo começa com uma pergunta simples e decisiva: como a cultura corporativa faz as pessoas se sentirem ao final de um dia de trabalho?

Quando esse compromisso se torna consistente, o Janeiro Branco deixa de ser apenas um marco simbólico e passa a refletir algo mais profundo: uma cultura organizacional que reconhece limites, legitima o cuidado e entende que saúde mental não é uma campanha, mas, acima de tudo, uma escolha diária.

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Marcela Lázaro

Enfermeira do trabalho, gestora de saúde corporativa, com foco em inovação, ESG e desenvolvimento de ambientes de trabalho saudáveis

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