Na estreia para a Today, Marcela Lázaro mostra como cumprir a NR-1 vai além da obrigação legal e reforça o compromisso com saúde mental e relações de trabalho sustentáveis
Muitas organizações respiraram aliviadas com o adiamento da entrada em vigor da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), postergada de 26 de maio deste ano para o mesmo dia em 2026. Há até quem acredite que possa ter outra prorrogação. Mas a reflexão essencial continua válida: será que as empresas compreendem o real valor do gerenciamento dos riscos psicossociais?
A atualização da NR-1 representa uma mudança estrutural importante ao estabelecer que riscos psicossociais integrem formalmente o inventário de riscos ocupacionais. Ela exige ainda que haja ações preventivas, avaliações clínicas e estratégias voltadas à promoção da saúde mental.
A saúde mental dos trabalhadores tem impacto real na economia como um todo. Basta ver os dados do Ministério da Previdência Social: só em 2024, quase meio milhão de afastamentos ocorreram por essa causa, o maior número em uma década e a terceira maior causa de concessão de auxílio-doença. Entre 2012 e 2022, os gastos da Previdência com esse benefício foram de 8 bilhões de reais.
No cotidiano corporativo, os efeitos são igualmente relevantes. Ambientes com alta carga de estresse, assédio moral, assim como metas desumanas geram desmotivação, pedidos de desligamento e perda de capital intelectual. A falta de segurança psicológica leva também à perda de confiança, comunicação ineficaz e menor engajamento, comprometendo o clima organizacional.
Outro impacto é o chamado “presenteísmo”, quando o profissional está fisicamente presente, mas com baixo rendimento, tornando-se um dos maiores custos invisíveis para as organizações. Mesmo difícil de mensurar, estima-se que ele provoque perdas de até 30% na produtividade.
Além dos prejuízos nas organizações, os transtornos mentais causados ou agravados pelo trabalho impactam relações familiares, redes de apoio e inclusão social.
É claro que nem sempre os adoecimentos mentais são causados exclusivamente pelo ambiente de trabalho. Fatores pessoais, familiares, sociais e profissionais têm influência. Mas o ambiente organizacional pode ser tanto protetivo quanto agravante, dependendo de como o trabalho é estruturado e gerido.
Antecipando-se à norma
Com mais tempo para se adaptar à NR-1, as empresas ganham a chance de se antecipar com iniciativas não só alinhadas à legislação, mas também a práticas internacionais de ESG. O processo parece complexo, mas uma boa forma para começar essa jornada é com a criação de um grupo de trabalho multidisciplinar, integrando RH, Jurídico, Saúde Ocupacional, Segurança do Trabalho, Compliance, lideranças e representantes dos colaboradores.
Uma dúvida comum nessa fase é se o mapeamento deve ser feito internamente ou com apoio externo. A resposta depende do porte, da maturidade da organização e dos recursos disponíveis. O mais importante é que haja seriedade, respeito, confidencialidade e participação de todos os níveis hierárquicos na condução do processo.
O ponto de partida pode ser a análise de dados já existentes: turnover, reclamações em canais de compliance, acidentes de trabalho, afastamentos, ausências não justificadas, mudanças de comportamento, pesquisas de clima e engajamento. O cruzamento dessas informações entre as diferentes áreas presentes no grupo de trabalho fortalece a identificação de fatores de riscos.
O RH ocupa posição estratégica nessa jornada, conectando pessoas, dados organizacionais e decisões estratégicas. Pode sensibilizar lideranças, traduzir dados humanos em informações de risco, propor programas de desenvolvimento, fomentar uma gestão mais humanizada e oferecer serviços de apoio psicológico, como convênios médicos ou EAP.
Além disso, o RH pode atuar para integrar as políticas da empresa, como as de saúde ocupacional e mental, programas de diversidade e inclusão, condutas de ética e respeito, processos de onboarding e desligamento, aos processos de RH.
O gerenciamento dos riscos psicossociais é uma construção coletiva. Requer dados, diálogo e, acima de tudo, respeito à saúde mental de quem faz a empresa acontecer. Um ambiente de trabalho saudável e sustentável não apenas reduz acidentes e melhora o clima, como também entrega retorno financeiro e valor social.
Portanto, independentemente do adiamento da obrigatoriedade de cumprir a NR-1, a ação voluntária e estratégica das empresas representa um investimento direto na saúde das pessoas e na sustentabilidade do negócio.