Como a Unico atraiu mais mulheres para a área de engenharia

Com o Mães da Engenheira, as profissionais têm uma carga horária 40% menor, salário compatível e dividem uma função

Por Maria Julia Lauand

Atrair mulheres para a área de Stem (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, na sigla em inglês) tem sido uma dificuldade para empresas no mundo todo. 

O problema começa já nas universidades: as mulheres ainda são minorias nos cursos dessas áreas, tradicionalmente masculinas. Segundo a pesquisa “Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, divulgada em 2021 pelo IBGE, elas representam apenas 22% dos alunos dos cursos de Engenharia e profissões correlatas e 13% dos de Computação e Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Globalmente, de acordo com a Unesco, as mulheres correspondem a menos de um terço dos contratados nas áreas de pesquisa e desenvolvimento.

Some isso ao fato de que as mulheres, quando têm filhos, encontram mais barreiras para se colocar no mercado de trabalho. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, publicado em 2016, mostra que quase metade das mulheres, quando retorna da licença maternidade, fica fora do mercado de trabalho por pelo menos dois anos, podendo chegar a três anos. Segundo os pesquisadores, a maior parte dessas mães foi demitida pela empresa sem justa causa.

Por isso, em 2021, a Unico, IDTech brasileira que oferece soluções de biometria facial e onboarding digital, decidiu criar um programa específico para aumentar a diversidade na área de engenharia, focando em mulheres com filhos. Para garantir que elas tivessem tempo de aproveitar a família, sem perder o contato com o trabalho, a jornada dessas profissionais foi reduzida em 40%. 

O caminho

Batizado de Mães na Engenharia, o programa foi inspirado na experiência pessoal da vice-presidente de TI da Unico na época, Fernanda Weiden, que enfrentou o dilema de grande parte das mulheres ao fim da licença maternidade: priorizar a carreira ou se dedicar à criança?

Para compreender se outras mães compartilhavam da mesma dificuldade na hora de retornar ao trabalho, Fernanda buscou relatos de mulheres na área de tecnologia em redes sociais e fóruns de discussão. Uma das coisas que lhe chamou atenção foi quando perguntava às mulheres o que elas mais gostariam de ter tido quando voltaram de licença-maternidade. A grande maioria respondia: “a possibilidade de trabalhar meio período”.

Fernanda era uma executiva experiente, com passagens por gigantes de tecnologia como Facebook e Google. Ela conhecia algumas práticas de “job sharing”, especialmente fora do Brasil, e então sugeriu algo parecido à Unico. “Quando a Fernanda se tornou mãe, ela se viu dividida entre a carreira e o cuidado com o filho”, diz Vanessa Carlim, gerente de aquisição de talento da companhia. “Por isso, decidimos criar algo que abraçasse as mães da engenharia.”

Assim, nasceu o Mães da Engenharia, para atrair e manter mais mulheres na área. A princípio, a empresa abriu dez vagas para profissionais que eram mães trabalharem 60% do tempo. Elas podiam escolher atuar poucas horas todos os dias ou três dias completos por semana.

O salário oferecido é proporcional e alguns benefícios também seguem a carga horária reduzida. Outros, até por uma questão de legislação, foram mantidos de forma integral, como o plano de saúde.

Em relação à liderança, a Unico mantém treinamentos sobre vieses inconscientes – o que contribui com o acolhimento das mulheres no pós-licença. Além disso, os vice-presidentes e o CEO apoiaram a criação do projeto, também facilitando a execução da ideia. Mesmo assim, o RH tomou cuidado para não forçar nenhum gestor a aderir à iniciativa – os que se engajavam com a causa podiam participar do programa. A melhor maneira de escalar e conseguir adeptos era uma abordagem acolhedora, não mandatória. 

Resultados

O Mães da Engenharia recebeu 387 candidaturas em 2021. Das oito vagas abertas, quatro foram preenchidas. A empresa não divulga resultados em números, mas garante que a percepção das participantes tem sido positiva – principalmente em tempos de pandemia, quando a jornada dupla da mulher (de trabalho e casa) se tornou algo com limites tênues.

Para as profissionais, o maior benefício tem sido o tempo adicional com os filhos. “Temos uma mãe que diz que a mudança foi ótima, porque, com a flexibilidade de horário, ela faz toda a rotina do bebê durante o dia. E quando ele vai dormir, ela começa a trabalhar”, diz Vanessa. “E ela é uma das engenheiras que mais entregam.”

Atualmente, metade do quadro de funcionários da Unico é formado por mulheres.

Think & Do

  • Tenha pessoas que sirvam de inspiração dentro da companhia e representem o projeto – e, sobretudo, garanta o apoio da liderança;
  • Comece a mudança da base, com programas de estágio e trainee focados em uma minoria, e depois escale para ter talentos diversos em todo o quadro de funcionários da empresa;
  • Acompanhe as pessoas de perto para entender como está sendo a experiência delas na empresa e quais os ajustes necessários. Isso ajuda a manter o engajamento.