Dentro do projeto Termômetro do Bem-Estar, inteligência artificial da Yara mapeia riscos psicossociais e ajuda funcionários a resolverem demandas burocráticas de RH
Por Marina Dayrell
A dinâmica imposta pela pandemia da covid-19 levou as empresas a terem que se reinventar, seja no próprio negócio ou nos moldes de trabalho. Uma dessas inovações aconteceu na Yara, multinacional norueguesa de fertilizantes, com filial no Brasil.
Diante do isolamento social e do home office, a ansiedade, o medo e a insegurança passaram a fazer parte da rotina de muitos trabalhadores no país. Com isso, a empresa precisava acessar os 5.500 funcionários do Brasil, os apoiando naquele momento e, ainda, promovendo o engajamento.
“A nossa demanda inicial era em relação, principalmente, à covid-19. Era um período de incertezas, ansiedade, e medo generalizado. Nós não podíamos sair de casa. Nós tivemos uma mudança abrupta no mercado de trabalho, com a intensificação do home office”, explica Marcela Lázaro, enfermeira do trabalho na Yara.
Em uma colaboração entre os times de Recursos Humanos, Saúde e Segurança e Tecnologia da informação, a Yara criou a inteligência artificial Yarin — que, em hebraico, significa “aquela que entende e ouve”.
O caminho
O projeto, chamado de Termômetro do Bem-Estar, passou a medir como as pessoas se sentem, se estão bem ou mal. Para fazer isso, a robô Yarin envia, via Teams, a pergunta “Como você está se sentindo hoje?” para todos os funcionários. No momento mais crítico da pandemia, isso acontecia uma vez por semana. Agora, a periodicidade é quinzenal. Mas o canal é constante e a pessoa pode acioná-lo quando e quantas vezes quiser, ainda que a robô não tenha feito a pergunta naquele dia.
As respostas “mal” ou “muito mal” são consideradas como pontos de atenção e encaminhadas para profissionais da saúde, que fazem uma abordagem com o trabalhador, de forma respeitosa e confidencial, para entender o problema e ajudar a resolvê-lo. Os casos considerados mais críticos são direcionados para uma consultoria de saúde que a empresa tem parceria e que dá direito a quatro sessões de terapia.
“Neste ponto, o foco é no momento mais crítico do problema, para a pessoa ter apoio e direcionamento e ajudá-la a sair daquele evento crítico. O tratamento de longo prazo não é feito com essa consultoria, mas com o plano de saúde a que eles têm acesso”, explica Luiz Barbosa, gerente de saúde ocupacional da companhia.
Com o sucesso entre os funcionários, a Yarin passou a ganhar novas atribuições. A primeira delas foi o mapeamento de casos suspeitos e confirmados de covid, o que ajudou a empresa a monitorar e evitar o espalhamento da doença. Em um segundo momento, também foi adicionada a função de reportar as doses da vacina e enviar os comprovantes de vacinação.
Já em 2021, a ferramenta começou a ganhar a principal função que tem hoje: o mapeamento dos riscos psicossociais e da saúde mental da empresa, para além da covid-19.
Fora a abordagem de saúde, o canal também passou a ajudar os profissionais e os times em outras demandas, como tirar dúvidas do plano de saúde, reportar problemas de relacionamento interno, resolver burocracias, como questões na folha de pagamento, entre muitas outras funções. O projeto se tornou uma das principais formas da empresa se relacionar com os funcionários.
Segundo Marcela e Luiz, a principal dificuldade de implementação do projeto foi em relação ao acesso do trabalhador ao canal. Desde a sua criação, houve avanços, mas o ponto ainda é um desafio.
“No começo, o projeto era totalmente manual. A pessoa preenchia um formulário. Nos casos de trabalhadores que não tinham acesso a um computador, ele precisava pedir para a sua liderança preencher para ele. Muitas vezes, eram questões confidenciais, sigilosas. Então, começamos a democratizar o acesso”, conta Marcela. A plataforma logo foi informatizada.
Resultados
Desde que a ferramenta foi informatizada e, com isso, passou a gerar dados, em 2021, ela teve 60 mil registros de saúde dos trabalhadores. Entre eles, 3% foram de “mal” ou “muito mal”. Com isso, 155 profissionais foram encaminhados para a área de saúde e receberam atendimento, subsidiado pela empresa, com psicólogo e psiquiatra.
Em relação à covid-19, a equipe de saúde conseguiu acompanhar cerca de 12 mil casos suspeitos e 3 mil confirmados.
A obtenção desses dados ajudou a impulsionar o tema de saúde mental na empresa. Os dados passaram a ser reportados mensalmente em reuniões com a alta liderança, para discutir ações locais. Eles também ajudaram o time de saúde a mapear as áreas mais críticas em relação à saúde mental para que eles possam propor formas de melhorá-la.
Para 2023, segundo Marcela e Luiz, a ideia é pensar em novas funcionalidades que permitam alavancar ainda mais os registros dos funcionários na plataforma. Atualmente, o projeto funciona apenas no Brasil, mas há uma intenção de expandi-lo internacionalmente, começando pela América Latina.
THINK & DO
- Comece de algum lugar. Nem sempre o que vai trazer resultados exige um grande orçamento. Em muitas vezes, dá para começar com os recursos que você tem naquele momento e ir melhorando ao longo da execução. O planejamento é importante, mas colocar o projeto para rodar vai te dar mais noção do que é preciso mudar.
- Pense em uma comunicação simples. A primeira abordagem com os funcionários precisa ser direta e simples, como no caso da Yarin, que faz uma pergunta bem fácil de ser compreendida por todos (“como você está se sentindo hoje?”). Este é um primeiro passo para que as pessoas entendam e passem a usar a plataforma.
- Crie times multidisciplinares. Em primeiro lugar, reunir profissionais de diferentes áreas permite que o projeto esteja respaldado em diversas frentes, como a assessoria jurídica, o lado da saúde e o suporte tecnológico. Mas, também, ajuda a criar novas funcionalidades para o projeto e adaptá-lo para as diversas demandas de outras áreas da empresa.
