IA e o sentido do trabalho: quando a tecnologia mexe com identidades

Mais do que automatizar tarefas, a IA tensiona o sentido do trabalho ao afetar saúde mental, valor profissional e pertencimento nas empresas, reflete Danilca Galdini

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Nos últimos meses, a inteligência artificial deixou de ser apenas um tema técnico e passou a ocupar um espaço emocional dentro das empresas. O avanço das ferramentas generativas, que produzem textos, imagens e até decisões baseadas em dados, trouxe, junto com o fascínio, uma inquietação: o que acontece com o valor do trabalho quando a máquina passa a fazer o que antes nos definia como indispensáveis?

Embora as discussões iniciais sobre IA tenham focado na ética e no medo da substituição em massa, os dados indicam um cenário mais sutil. O Goldman Sachs prevê que a tecnologia pode automatizar cerca de 25% de todo o trabalho realizado atualmente por pessoas (no Brasil, este índice gira em torno de 20%), o restante será transformado por novas combinações entre humano e máquina. Assim, tão importante quanto discutir o fim do emprego é acompanhar a reconfiguração do que fazemos e de como nos sentimos úteis.

O Fórum Econômico Mundial projeta que o uso da IA transformará 40% das habilidades humanas até 2028. Paralelamente, o relatório da Deloitte revela que essa mudança é uma fonte crescente de ansiedade para profissionais e lideranças, não apenas pela exigência de novas competências digitais, mas pela ausência de diretrizes claras sobre esses novos papéis.

Essa ansiedade revela algo além do medo da substituição, mostra o desconforto diante da possibilidade de perder o sentido do próprio papel. Se o trabalho sempre foi uma forma de provar valor e pertencimento, o que acontece quando uma tecnologia produz mais rápido, com menos erros e sem descanso?

Essa reflexão aparece agora porque, durante décadas, fomos condicionados a associar valor à capacidade de produção. Quando um sistema executa tarefas com mais rapidez e precisão, ele não apenas altera funções, mas reconfigura identidades. Portanto, a questão não é apenas técnica, é também simbólica já que a IA desafia a narrativa que sustenta a autoestima profissional.

As empresas têm reagido a essa transformação com iniciativas de requalificação técnica, preparando as pessoas para o convívio tecnológico, algo essencial para sustentabilidade dos negócios, porém esta é apenas metade da jornada.

O próximo passo fundamental é investir na redefinição do propósito, apoiando as pessoas a encontrarem seu lugar em um cenário onde o “fazer” burocrático e repetitivo foi automatizado.

O impacto psicológico da IA não se resume à ansiedade do desemprego, mas à dificuldade de reconstruir identidade em um mundo onde o valor do trabalho se desloca.

O futuro exigirá novas competências, mas também novas conversas sobre pertencimento, confiança e propósito. Porque o que está em jogo não é apenas a produtividade das empresas, mas o sentido que as pessoas dão ao que fazem.

A inteligência artificial talvez não substitua pessoas, mas certamente nos obriga a substituir certezas históricas. Para um mundo que sempre buscou segurança no resultado do esforço físico ou intelectual, talvez o verdadeiro aprendizado agora seja conviver com o incômodo de não saber exatamente quem somos diante das máquinas.

 

Danilca Galdini

Head de Pesquisa na Cia de Talentos e jurada no prêmio Think Work Innovations.

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