Empresas que dizem colocar pessoas no centro precisam provar isso, sem esperar por leis. É o que pensa Matthias Wegener. Leia o artigo completo
Alguns assuntos parecem caixas-pretas dentro do RH: são reconhecidos como problemáticos, mas permanecem adormecidos, e atravessam ciclos de gestão e viradas de ano sem mudanças concretas. Até que o governo interfere. E aí, de repente, viram prioridade.
Foi o que aconteceu com os benefícios flexíveis. Embora as pessoas pedissem mais autonomia há tempos, o tema só ganhou tração após as mudanças no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) entrarem em vigor, em 2023. No ano anterior, mesmo com o anúncio de que viriam alterações, menos de 10% das empresas estavam, de fato, se preparando. No primeiro semestre de 2023, esse número saltou para 35%. E o resultado? A adoção do modelo flexível cresceu de 22% para 34% das empresas em apenas dois anos, segundo mapeamentos da Think Work.
Algo semelhante aconteceu com a discussão sobre desigualdade salarial entre homens e mulheres. As diferenças sempre estiveram ali, nos dados e nas experiências cotidianas. Mas foi necessária uma nova exigência legal para que muitas empresas finalmente passassem a olhar com mais atenção para seus próprios números.
A obrigatoriedade de divulgar publicamente os indicadores forçou uma mudança de postura. Sim, há críticas à metodologia utilizada. Mas ela ajudou a escancarar desigualdades que antes eram varridas para debaixo do tapete — e espero que sirva ao menos como ponto de partida para tirar o tema da zona cinzenta e colocá-lo no centro da conversa.Agora, mais uma vez, vemos o fenômeno se repetir com a saúde mental. Em 2022, no auge da pandemia, nossas pesquisas registraram o dado mais crítico da série histórica: apenas 8% das pessoas relataram se sentir bem todos os dias. No ano seguinte, com a volta à normalidade, houve uma melhora. Mas desde então, os indicadores se mantiveram praticamente inalterados. E o mais preocupante: apesar de ser evidente que algo precisava mudar, o tema seguia fora das prioridades do RH.
As pesquisas sobre os principais desafios do RH realizadas pela Think Work revelavam isso com clareza. No início de 2023, apenas 17% das empresas apontavam a saúde mental como uma das três principais prioridades. Em 2024, esse número caiu para 9%. Só com a aproximação da entrada em vigor da nova NR-1, em 2025, o jogo começou a virar. No início deste ano, 34% das empresas já consideravam o tema relevante. E, agora, no mapeamento para o segundo semestre, ele aparece como o principal desafio do RH para 40% das empresas. Tomara que desta vez o tema entre de fato na agenda estratégica e traga transformações reais para as pessoas.
Mas fica a pergunta incômoda: por que só agora? Por que é preciso uma regulamentação para que problemas tão evidentes sejam enfrentados?
Tantas empresas afirmam que as pessoas estão no centro de suas estratégias. Tantos RHs dizem atuar com foco no bem-estar e na equidade. Mas o que vemos na prática é que temas sensíveis só ganham atenção real quando uma obrigação externa bate à porta.
Empresas que realmente colocam as pessoas em primeiro lugar não deveriam esperar uma lei para agir. Deveriam liderar essas transformações. Antecipar-se às regulamentações. E assim, assumir seu papel de protagonistas na construção de ambientes de trabalho mais justos, saudáveis e coerentes com os valores que dizem defender.
Talvez estejamos apenas no começo desse amadurecimento. Enquanto ele não vem, seguimos dependendo daquilo que, em tese, deveria ser apenas um ajuste para os que ainda não despertaram para a urgência de cuidar das pessoas: a legislação.