Com base nos dados da edição deste ano do prêmio Think Work Innovations, Tatiana Sendin analisa os avanços do RH em eficiência e intencionalidade
A inteligência artificial (IA) já está em 41% dos projetos de gestão de pessoas mais inovadores do país. Vai da cultura corporativa à carreira, da hora de atrair até a de dizer tchau ao funcionário.
Enquanto em muitas áreas a IA ainda é aplicada principalmente para otimizar processos e cortar custos, no RH cresce para melhorar a experiência de quem trabalha: personalizar jornadas, calibrar decisões e dar visibilidade ao talento que antes passava despercebido.
Claro, não dá para ser ingênuo e acreditar que a IA só soma. Como toda automação, ela reduz o número de pessoas necessárias para uma função – mas também pode melhorar as condições de quem fica e de quem recebe o serviço. Algumas empresas, prevendo o impacto na tecnologia nos empregos, já se antecipam com programas de reskilling, reaproveitando profissionais em outras áreas ou ajudando-os a se recolocar em novas empresas.
Mas este artigo não é sobre IA. É sobre a evolução na gestão de pessoas.
Até pouco tempo atrás, as decisões sobre funcionários eram tomadas com base em crenças e julgamentos pessoais – e, em muitas empresas, ainda são. E julgamentos, sabemos, vêm carregados de ideias pré-concebidas e vieses. O resultado está aí: demissões injustas, promoções equivocadas, diferenças salariais sem justificativa, líderes tóxicos. O mesmo cenário que leva tantos trabalhadores a reclamar de seus empregos e a se sentir desmotivados e desconectados.
Nos últimos anos, porém, o RH ganhou novas ferramentas: machine learning, análise de redes (ONA), dashboards de People Analytics. Esse arsenal ajuda a reduzir vieses, acelerar processos e embasar decisões – com números, não julgamento.
Na edição 2025 do Think Work Innovations vimos esse salto de maturidade. People Analytics ainda é a menor categoria em volume de inscrições (3%), mas é a mais consistente tecnicamente, com 71% das iniciativas certificadas como inovadoras.
Com dados, o RH enxerga melhor o que acontece, fortalece seus argumentos e mostra aos demais líderes a complexidade de lidar com pessoas. E se, como tantos CEOs repetem em eventos e redes sociais, “as pessoas são o que importa nos negócios”, então a área que cuida delas é o verdadeiro coração da empresa.
Mas inovar em RH não é só sobre dados e tecnologia, nem se resume à inteligência artificial. Desde que lançamos o Think Work Innovations, em 2022, acompanhamos o que é inovar em gestão de pessoas. Em quatro anos e mais de 1.200 projetos depois, aprendemos: inovar em gestão de pessoas tem um forte componente humano.
Com dados e com IA, o RH que emerge da caverna busca coerência entre discurso, prática e impacto. Empresas que não apenas falam em escuta ativa, mas realmente escutam. Que não tratam bem-estar como brinde, mas como política. Que conectam remuneração à cultura, liderança ao propósito e carreira ao futuro.
Os números confirmam: Cultura Organizacional e Saúde e Qualidade de Vida foram as categorias mais fortes, com altos índices de certificação (62% e 56%). Sinal de que o RH está construindo infraestrutura social dentro das empresas, e não apenas eventos de engajamento.
Em Diversidade, a lição é clara: projetos voltados a grupos específicos — mulheres negras, jovens periféricos, pessoas com deficiência — transformam realidades porque partem do concreto, e não de slogans.
Cultura, tímida em 2024, veio robusta este ano. Os casos mostram que cultura organizacional não é frase na parede ou arquitetura instagramável: é a forma de decidir, agir e se relacionar no dia a dia. O que se fala é o que se pratica.
Na mesma lógica, Carreira representa o ponto de virada. Em um mundo de fronteiras borradas entre vida e trabalho, inovar nessa área é mais do que ter plano de cargos e salários: é redesenhar possibilidades e abrir espaço para trajetórias não lineares que já acontecem.
Fica nítido: o RH está ganhando eficiência e intencionalidade. Usa dados para negociar acordos coletivos, entender padrões de demissão, medir percepção de carga de trabalho, calibrar decisões salariais. O que antes ficava no “achômetro” agora é discutido com indicadores e validações cruzadas.
E o que há de mais humano do que reconhecer desigualdades salariais entre homens e mulheres? Ou enxergar líderes como pessoas, que também precisam de atenção à saúde mental e emocional?
Inovar em RH é entender que cada empresa é feita de pessoas singulares, com histórias, percepções e opiniões próprias. Muitas vezes, é a diferença entre seguir o que o mercado espera e fazer o que o negócio (esse conjunto de pessoas) realmente precisa.
O Prêmio Think Work Innovations 2025 celebra isso: a coragem do RH de ler seu tempo, seu time e seu território. De usar dados, mas também intuição, para fazer o que é certo.
Assim como na jornada do herói, o RH sai da caverna para se tornar… herói. A área ganha relevância, maturidade, clareza. E todos nós, trabalhadores, agradecemos.