Por meio de encontros mensais, as mulheres da empresa ganharam um espaço de troca e mais visibilidade para a carreira
Por Bárbara Nór
Se a diversidade é um desafio para qualquer organização, alguns setores ainda precisam enfrentar mais barreiras que outros. É o caso da Renault, montadora de automóveis. Na companhia, as mulheres ocupam apenas 12% do quadro de funcionários e 21% das posições de liderança.
Em uma indústria majoritariamente masculina, a dificuldade é dupla: de um lado, atrair mais mulheres para atuar no setor. De outro, garantir um ambiente mais inclusivo, no qual aquelas que já estão na empresa se sintam à vontade e tenham espaço para se desenvolver e crescer na carreira.
Essa foi uma das percepções que Tatiane Mesquita, gerente de RH do time comercial e head de Diversidade e Inclusão na Renault, teve pouco depois de chegar à companhia. Ela conta que, logo ao assumir o cargo, a primeira coisa que fez foi iniciar um processo de escuta.
Durante dois meses, ela se reuniu com todo o time comercial. Com talentos mapeados, ela envolveu a liderança e fez reuniões individuais. Já com o resto da equipe, organizou cafés com grupos de cinco a seis pessoas para entender como estava sendo a experiência na empresa.
Ao fim desse trabalho, um dos pontos que mais marcaram Tatiane foi justamente em relação às mulheres. “Elas sentiam que não tinham muita representatividade nem voz, e ainda havia muitas disputas, sem ajuda mútua entre elas”, afirma.
Se a Renault já tinha um grupo de diversidade de gênero, Tatiane sentiu que precisava de algo mais específico para que aquelas demandas pudessem ser trabalhadas dentro da realidade do time comercial.
O caminho
A solução foi, a partir de janeiro de 2021, criar um fórum exclusivo para as mulheres do departamento comercial, chamado Café com Elas.
A ideia era que elas pudessem trocar experiências, dificuldades e histórias de superação. Essa seria a base para que elas pudessem encontrar na empresa um ambiente que de fato impulsionasse a carreira e o desenvolvimento.
Além disso, os encontros serviriam para que o relacionamento entre as funcionárias melhorasse. Em seu diagnóstico, Tatiane percebeu que faltava colaboração entre as mulheres do time. “Meu convite para elas foi que a gente pudesse sair da teoria para a prática da sororidade e, junto com isso, apoiar o desenvolvimento delas na organização”, diz.
Para garantir o engajamento, a equipe de Tatiana pediu para que as profissionais respondessem a um formulário com os temas de interesse e sugestões de palestrantes que elas gostariam de escutar.
A partir daí, os encontros começaram a acontecer, sempre uma vez por mês, contando com funcionárias de todos os níveis – de estagiárias a analistas e gestoras, acompanhadas por Tatiane. O formato, que começou 100% online e hoje é híbrido, possibilita a participação de funcionários nos quatro cantos do país.
A cada edição, uma mulher é convidada para falar sobre um tema – elas podem ser de dentro e de fora da empresa, dependendo do assunto. “Procuramos aquelas que sejam representativas, expressivas, que possam inspirar e apoiar o desenvolvimento”, afirma Tatiane.
Os encontros já trataram de assuntos como coragem e vulnerabilidade, protagonismo, comunicação assertiva, carreira e maternidade, entre outros. “As pessoas compartilham histórias, dores e aprendizados”, diz.
O projeto da Renault foi finalista do prêmio Think Work Flash Innovations de 2022 na categoria desenvolvimento.
Resultados
Hoje, quase dois anos depois do início do Café com Elas, Tatiane conta que a adesão continua alta. “A participação é bastante ativa, elas realmente fazem perguntas, trazem depoimentos e o número se mantém constante”. Todo mês, só no time comercial, são mais de 100 funcionárias em cada reunião.
A iniciativa deu tão certo que ela também vem sendo replicada em outros departamentos da Renault, como áreas fabris, de finanças, comunicação e compras.
Ainda no começo de 2022, Tatiane fez uma segunda rodada de escuta ativa junto aos funcionários – e os primeiros resultados positivos já apareceram, sobretudo na forma como as mulheres encaram sua carreira e oportunidades internamente.
“Elas contam que se sentem mais fortalecidas, que conseguem se posicionar, que pedem a palavra para terminar de falar quando são interrompidas, e que têm segurança para questionar quando um homem só repete a ideia dela”, diz.
Além disso, o clima de competição entre elas diminuiu e deu lugar a um relacionamento mais próximo e de apoio no dia a dia. Os próprios encontros passaram a abordar momentos de vulnerabilidade, como em uma edição recente sobre saúde mental, quando as participantes dividiram situações difíceis. “Há dois anos isso era inimaginável porque não existia um ambiente de segurança para isso.”
Outro resultado foi o recorde na pesquisa de clima: historicamente, o Comercial ficava abaixo da média da empresa, sempre entre os dois últimos. Agora, depois de iniciativas como o Café com Elas, a área ficou entre as melhores, acima da média em Clima e em Cultura, comemora Tatiane.
THINK & DO
Como incentivar um ambiente de segurança e de desenvolvimento
- Recrute apoiadores. Uma das medidas de Tatiane foi juntar um grupo de funcionários engajados com as ações do RH. Ela se reúne com eles toda semana para pensar ações de clima e cultura, incluindo o Café com Elas. “O grupo é super colaborativo e isso ajuda na adesão”;
- Dê o exemplo. Além de participar das reuniões, Tatiane conta que busca se mostrar vulnerável e transparente no dia a dia com as equipes. Isso ajuda a criar uma relação mais próxima e com mais abertura;
- Pratique a escuta ativa. Para Tatiane, um dos principais trunfos da iniciativa foi manter sempre a escuta junto aos funcionários. Assim, ela garante que as ações estejam alinhadas às necessidades reais das pessoas, o que torna os resultados mais efetivos.
