“Presidente da empresa não é mais o CEO”

Em entrevista exclusiva, Silvio Dulinsky, o brasileiro responsável pelo setor privado do Fórum na América Latina, fala sobre as tendências socioeconômicas e negócios para 2021

The Great Reset (ou O Grande Reinício) – o tema do Fórum Econômico Mundial deste ano – veio a calhar depois da pandemia que ceifou a vida de 2,5 milhões de pessoas em pouco mais de 12 meses. Realizado de forma online pela primeira vez em 50 anos, o evento foi um convite a governos, empresas e sociedade reverem suas formas de interagir com o planeta, de criar leis, fazer negócios e tratar as pessoas.

Quais as previsões do Fórum para 2021? E como as companhias podem se preparar?

Esse foi o assunto da entrevista exclusiva de Think Work com Silvio Dulinsky, o brasileiro responsável pelas interlocuções do Fórum com o setor privado na América Latina. “Podemos dizer que o presidente da empresa não é mais o CEO. O presidente é a massa”, afirmou o executivo baseado em Genebra há quase uma década. 

Leia a seguir trechos da entrevista:

Quais as previsões do Fórum Econômico Mundial para 2021?

Este ano será marcado pela instabilidade, com volatilidade macroeconômica e financeira. A grande incerteza é a vacinação contra a covid-19. Os países com condições de aplicar a vacina rapidamente conduzirão a recuperação acelerada da economia. A China, um dos únicos emergentes que cresceram em 2020, deve repetir o resultado, se consolidando como motor econômico global.

Quem ganha e quem perde nesse cenário?

Não só as empresas de tecnologia ganharam espaço, mas as que conseguiram se adaptar. O que mostra que, uma vez controlada a pandemia nos próximos seis meses, a economia retornará a um nível próximo a antes da crise, com o mercado reconfigurado. Alguns setores perderam devido a mudanças estruturais e seguirão sofrendo. É o caso de viagens, das companhias aéreas e do turismo. Antes, a pessoa partia de Londres para Nova York para uma reunião de duas horas e voltava no mesmo dia. Isso acabou.

Silvio Dulinsky
Silvio Dulinsky, do Fórum Econômico Mundial

Que mudanças sociais devem marcar o ano?

A 4ª Revolução Industrial, que falamos desde 2016, vai além da digitalização. É a convergência de cinco tecnologias: computação, materiais avançados, mobilidade de comunicação, energias renováveis e biotecnologia. É uma transformação profunda na forma como as pessoas interagem entre si, com o trabalho, com o governo e com a comunidade. O jeito como as pessoas se comunicam, vinculado às novas plataformas de comunicação, faz com que elas falem apenas com grupos afins, com pouca exposição para ideias contrárias. Os indivíduos têm dificuldade de estabelecer diálogos. E isso é elevado até os líderes governamentais. A fragmentação e a polarização de grupos sociais, e a falta de conversa dos governantes é motivo de grande preocupação.

Isso tende a piorar com as novas gerações, que usam mais as redes sociais?

Tendemos a pensar nos millennials, mas é algo maior. As redes sociais e as plataformas de comunicação ampliaram o acesso à informação. Há 40 anos, tínhamos cinco canais de TV no Brasil, sendo que dois detinham 80% da audiência. Havia poucas fontes de informação, e partíamos do princípio de que todas eram verdadeiras. Hoje, há centenas e centenas e sabemos que algumas são verdadeiras, outras não. É difícil pensar que os movimentos políticos e sociais que marcaram a última década teriam acontecido sem o fenômeno das redes sociais.

O engajamento pela internet e a construção da sociedade dessa forma é algo novo.

Como a democratização da informação afeta os líderes de negócio?

O presidente da empresa não é mais o CEO. O presidente é a massa: os empregados, os reguladores, a mídia. São os stakeholders, as partes com que a organização se relaciona, que têm o poder (e os meios) para realmente potencializar ou tornar inviável sua vida. Na entrevista de emprego, o candidato é apresentado a um mundo maravilhoso, mas confronta a versão corporativa com o que foi publicado na internet. Os modelos digitais descentralizam a estrutura de poder, fragmentam a tomada de decisão. Isso significa dar poder às pontas, estipular novas métricas e medidas de incentivo, além de exigir uma revisão nas políticas de treinamento.

Como melhorar a confiança nas empresas?

A sociedade está passando por uma recessão de confiança, algo acentuado pela pandemia. Podemos pegar a doença de qualquer um, então as pessoas não se tocam, não se abraçam, mantêm distância. É papel dos líderes mitigar isso. Aí entram aspectos de generosidade, lealdade, compromisso com os trabalhadores, os fornecedores e os clientes. É uma oportunidade gigante para os negócios, pois as pessoas confiam especialmente em seus empregadores.

O que é o Great Reset?

O Great Reset visa a implementar o capitalismo de stakeholder, que é incorporar no processo de decisão a necessidade de gerar valor para todos. É o oposto da mentalidade “se eu aumentar meu preço, meu cliente vai pagar mais”. Eu ganho mais, mas ele vai ficar sem dinheiro. O mesmo com a cadeia de valor. A “oportunidade de soma zero” é a solução fácil para qualquer líder. O desafio está em gerir os negócios de forma a criar valor amplamente. O Reset é repensar a estrutura da economia, da sociedade, das organizações, até chegar ao modelo de negócio.

Para ler a entrevista completa, publicada na newsletter Think Forward #05, assine o Think Work Lab.

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