Número de formados pela universidade corporativa em 2023 foi 50% maior que no ano anterior; empresa já conta com 2 mil profissionais com deficiência
Durante anos, a empresa de telecomunicações Vivo enfrentou dificuldades para cumprir a cota legal de contratação de pessoas com deficiência (PCDs) em seu quadro de 33 mil profissionais. O resultado eram multas recorrentes por não atingir os 5% exigidos pela legislação.
Mesmo quando as contratações aconteciam, a estrutura organizacional não estava preparada para acolher e desenvolver esses profissionais. Faltavam processos adequados, linguagem acessível, letramento dos demais funcionários, bem como ferramentas inclusivas – tanto no ambiente físico quanto no digital, especialmente para capacitação.
A virada aconteceu quando a pauta da acessibilidade passou a ser entendida como compromisso cultural da companhia. “Com a contratação de mais pessoas com deficiência ao longo dos anos, vimos a necessidade de estruturar nossos materiais da Academia V, nossa plataforma de educação e treinamento, para que todos tivessem a mesma experiência de aprendizagem”, conta Bruna Vieira, coordenadora de Gestão da Vivo.
O Caminho
A meta de transformar a experiência dos funcionários com deficiência – da admissão ao desenvolvimento – levou a companhia a reavaliar práticas e tecnologias a partir de 2022.
Christiane Araújo, analista de Gestão Sênior da empresa, explica que a mudança de postura exigiu um processo profundo de aprendizado interno. “Veio o desafio de conhecer a fundo os tipos de deficiência, passar pelo letramento dos vocabulários adequados, entender as particularidades de cada pessoa”, diz.
O passo mais importante foi trocar o fornecedor da plataforma de aprendizagem por outro que atendesse aos requisitos de acessibilidade, como compatibilidade com leitores de tela (JAWS, NVDA), VLibras, TalkBack, ajuste de fontes e contraste.
Todos os vídeos ganharam legendas e os conteúdos foram adaptados com linguagem neutra e acessível, além de imagens que garantissem ampla representatividade.
A construção foi colaborativa: pessoas com deficiência de diferentes áreas participaram dos testes, apontaram ajustes e sugeriram melhorias. A consultoria Talento Incluir apoiou o letramento da equipe de RH, enquanto a parceira educacional GP cuidou do desenvolvimento dos conteúdos.
O time de 65 instrutores também foi preparado para acolher os novos públicos, e algumas áreas passaram a contar com funcionários fluentes em Libras.
“Foi um processo com muitos testes, com apoio de PCDs de diversas áreas. Elas fizeram comentários que somente quem usa a ferramenta no dia a dia pode trazer”, diz Bruna.
Resultados
A reformulação da Academia V trouxe avanços concretos. Em 2023, 464 funcionários com deficiência participaram de treinamentos, 50% mais do que em 2022. A iniciativa também resultou na emissão de 19 mil certificados em cursos sobre diversidade e acessibilidade, um crescimento de 86% em relação ao ano anterior. Ao todo, houve 13 mil horas de cursos, com NPS médio de 9,6 e avaliação geral de 4,8 em 5.
A empresa adaptou mais de oito mil conteúdos com ao menos uma funcionalidade de acessibilidade. Em treinamentos síncronos, 79 turmas incluíram pelo menos um aluno com deficiência.
Atualmente, a Vivo conta com quase 2 mil funcionários com deficiência em diferentes áreas, como lojas, call centers e equipes de campo, incluindo vinte pessoas cegas atuando no atendimento via redes sociais, com uso de ferramentas específicas de leitura de tela.
“Acessibilidade é um direito e é nosso papel prover isso para todo mundo. Em dois anos de projeto, a empresa já atingiu a meta de 5% de PCDs e pretendemos ir além. Queremos dobrar a meta”, afirma Christiane.
Agora, a Vivo prepara uma formação continuada sobre neurodivergência, com foco em transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e autismo. A partir de 2026, a empresa pretende intensificar o olhar sobre esses públicos, com novas trilhas de capacitação específicas.
THINK & DO
As dicas da Vivo para os RHs que precisam criar novos projetos de diversidade e inclusão:
- Não espere o momento perfeito. Se não sabe por onde começar, estude, capacite-se. Muitos aprendizados virão durante o processo.
- Inclua desde o início. Envolver pessoas com deficiência na construção dos projetos garante soluções mais eficazes e evita retrabalho. Elas são as melhores especialistas em acessibilidade.
- Pratique escuta ativa e abertura. Esteja disponível para acolher diferentes perspectivas e adaptar rotas. A transformação acontece quando há espaço genuíno para participação.
