Iniciativa ComuniDados capacita jovens em situação de vulnerabilidade social, promovendo inclusão e empregabilidade na área de tecnologia
O Hospital Israelita Albert Einstein, em 2021, percebeu um movimento no mercado de tecnologia que mereceu atenção. A área estava aquecida e agressiva, com muitas contratações e movimentos. Com a alta demanda do setor, muitos profissionais, alguns deles nem tão bem capacitados, estavam trocando de emprego rapidamente, sempre buscando salários mais altos oferecidos em outro lugar.
A instituição, que emprega 19 mil pessoas, fez estudos e chegou à conclusão de que os profissionais da área de tecnologia e dados que permaneciam no Hospital eram aqueles que tinham sido desenvolvidos ali dentro, seja com cursos, seja estagiários efetivados.
“Entendemos, assim, que precisávamos ter programas de capacitação na área de tecnologia e criar essas pessoas aqui dentro, fidelizando-as e também as desenvolvendo com a cara da instituição, conhecendo nosso modo de trabalho e nossas ferramentas”, conta Tatiane Cabral, coordenadora de atração e seleção do Hospital Israelita Albert Einstein.
O Caminho
O Hospital Israelita Albert Einstein buscou uma parceria com a Ada.Tech, uma EdTech focada em ensino na área de tecnologia, que já tinha experiência com clientes como Itaú e Santander.
Apesar da Ada.Tech possuir um curso pronto para formação em dados, o Hospital reformulou a ementa, criando em conjunto com a startup um projeto personalizado que atendesse às suas especificidades.
Desenhado o curso, a equipe da startups e o time de Atração, Seleção e Diversidade do Einstein definiram o público-alvo, optando por jovens da comunidade de Paraisópolis, bairro próximo ao hospital e onde ele já atuava há décadas em diversos projetos sociais, por meio do Programa Einstein na Comunidade Paraisópolis (PECP).
“Ali, já tínhamos projetos mais generalistas de formação, como introdução à informática, mas eram cursos iniciais. Dessa vez, seria um curso profissionalizante”, conta Tatiane Cabral, coordenadora de atração e seleção do Hospital Israelita Albert Einstein.
Nasceu, assim, o ComuniDados, buscando formar em análise de dados e linguagem de programação jovens de 18 a 30 anos e residentes da comunidade de Paraisópolis.
Além de Tatiane, o projeto contou com as lideranças de Telma Sobolh, presidente dos voluntários e responsável pelo PECP; Andrea Suman, diretora de dados e agilidade do Hospital Israelita Albert Einstein; e Miriam Branco, diretora executiva de RH do Hospital. Para o desenvolvimento, a área de RH articulou o projeto com as áreas de big data e de responsabilidade social, além da PECP.
Uma das principais razões pelas quais o curso oferecido foi uma iniciativa inovadora é o seu forte aspecto de responsabilidade social. Ao direcionar-se especificamente para jovens da comunidade de Paraisópolis, o programa reconheceu a realidade enfrentada pelas favelas no Brasil. As favelas enfrentam desafios socioeconômicos e falta de acesso a oportunidades educacionais e profissionais. Essa realidade cria dificuldades significativas para o desenvolvimento pessoal e profissional dos jovens que vivem nesses locais. O curso procurou vencer esses problemas, proporcionando capacitação na área da tecnologia e empregabilidade, ampliando as perspectivas de trabalho dos jovens.
Para divulgar o ComuniDados, o Hospital repensou estratégias de divulgação tradicionais, optando, para além da divulgação online, pelo uso de um carro de som que circulava pelas ruas de Paraisópolis anunciando as inscrições para o projeto.
A empresa também investiu em um curso preparatório para os inscritos realizarem antes da prova do processo seletivo, ajudando todos a estudarem e chegarem preparados. O projeto teve 750 pessoas inscritas. Após a seleção pelo filtro de idade, chegaram a cerca de 380 candidatos válidos, que concorreram a 30 vagas. O processo seletivo contou com prova e dinâmicas de grupo. Ao final, 32 foram selecionados, que ficaram sabendo da aprovação durante um evento na Ada.Tech.
O curso, online, se iniciou na metade de 2022 e se encerrou em dezembro daquele ano, totalizando 162 horas e 54 aulas, em 18 semanas. O projeto teve um investimento final de 6.225 reais por aluno, sendo uma classe com 77% de homens e 17% de mulheres cisgeneros e 6% de outros perfis; 43% brancos, 20% pretos e 37% pardos. Para quem não tinha acesso a computador ou internet, o Hospital ofereceu as salas de informática do PECP.
Dos 32 inscritos, 30 se formaram, com direito a projetos em grupo durante os módulos e trabalho de conclusão de curso. “Encontramos pessoas incríveis no ComuniDados, pessoas com ótima formação e que estavam esperando apenas uma oportunidade”, diz Tatiane.
Resultados
Como resultado de todo o processo, o ComuniDados recebeu um total de 871 inscrições, com uma média de 237 candidatos engajados em cada etapa, resultando na formação de 30 profissionais com as competências necessárias para se tornarem profissionais juniores na área de Ciências de Dados.
A divulgação inicialmente direcionada à comunidade de Paraisópolis surpreendeu ao alcançar uma audiência ampla. Os conteúdos compartilhados nas redes sociais tiveram um impacto significativo, atingindo 28.042 pessoas e gerando 12.683 acessos à landing page da Ada.Tech sobre o projeto.
Além disso, a iniciativa ganhou destaque em mídias de grande relevância, como Exame, IP News, TI Inside e Futuro da Saúde. Essa visibilidade gerou um impacto positivo na instituição, abrindo novas oportunidades para parcerias com outras empresas interessadas em promover ações de Diversidade e Inclusão em conjunto com o Hospital. Essa repercussão fortaleceu o compromisso da instituição em promover iniciativas mais inclusivas e ampliar seu alcance para além da comunidade inicialmente atendida.
O Hospital Israelita Albert Einstein ficou satisfeito com o resultado do ComuniDados, mas não contratou como esperava. “Assim que concluímos o curso, vimos um movimento mundial de retração do mercado. Meta, Google, Twitter, diversas empresas e startups de tecnologia, no Brasil e lá fora, todas começaram a demitir em massa e segurar as contratações. De repente, não estava mais aquela guerra de talentos e salários que diagnosticamos a partir de 2021. Assim, não contratamos ninguém do curso”, explica Tatiane. O Hospital optou por uma estratégia onde não iria diminuir equipes em tecnologia, mas também não haveria aumento do quadro de funcionários. “Temos acompanhado periodicamente a situação dos 30 formados em termos de empregabilidade. Dos formados, 50% estão empregados atualmente, sendo 31% na área de tecnologia”, completa.
A instituição, em 2022, contou com outro programa de capacitação, dessa vez para refugiados, empregando 13 das 26 pessoas participantes. Ela considera que esse projeto, ao lado do ComuniDados, representa um bom investimento na área de dados.
Dessa forma, para o restante de 2023 e 2024, a instituição pretende investir em nova frente, dessa vez em programação, capacitando os chamados “Devs” – desenvolvedores.
Ainda em 2023, o Hospital fechou uma parceria com a Johnson & Johnson para oferecer 103 bolsas de estudo para pessoas que passarem pela formação técnica. “Para nós, é interessante investir nesses programas com outras empresas porque ajudamos a aumentar a empregabilidade para além da nossa instituição”, finaliza Tatiane.
THINK & DO
Dicas do Hospital Israelita Albert Einstein para criar um projeto de capacitação de jovens e desenvolvimento local
- Acesso a dados: Realize uma análise crítica para entender as demandas da empresa, identificando problemas e oportunidades. O projeto deve ser implementado porque faz sentido e atende a uma necessidade real, não apenas porque é “legal”.
- Papel social da empresa: Considere a importância de causar um impacto positivo na sociedade. O projeto deve agregar valor e gerar oportunidades, com especial atenção aos grupos mais vulneráveis.
- Envolvimento de todas as áreas: Envolva todas as áreas da empresa, além do RH. O projeto não pode ser apenas uma iniciativa do RH para ser “legal”; ele deve colher ideias e esforços de várias áreas, tornando-se estrategicamente importante para a instituição como um todo.
