Projeto da Everymind promove a inserção de neuroatípicos

Após a implantação do programa, funcionários neuroatípicos já são 20% dos profissionais da Everymind

Por Fernanda Vasconcelos

Em um mercado onde a mão de obra é disputada “a tapa” e a escassez é o normal, pensar em diversidade e inclusão não é só uma questão de evolução da humanidade, é de sobrevivência. A Everymind, que atua na oferta de plataformas de salesforce e CRM, sempre teve dificuldade de repor profissionais por estar inserida na área de tecnologia, onde a concorrência é muito grande. 

Além disso, Eduardo Nunes, responsável pela área de pessoas, queria criar na empresa o pilar da inclusão. Há dois anos, então, montou uma estratégia para contratar neuroatípicos. 

“Em mercados maduros como o dos Estados Unidos e da Europa, é comum as empresas de tecnologia contratarem pessoas com TDAH e do espectro autista. Sendo head de pessoas, eu precisava impulsionar isso”, contou. 

Segundo pesquisas da aTip, startup que trabalha com a inserção de pessoas neuroatípicas, 85% dos adultos com espectro autista ou TDAH estão fora do mercado de trabalho. 

O executivo também havia participado de um evento chamado Autismo Tech, entre 2020 e 2021, quando teve a ideia de elevar a inclusão na Everymind. “O evento visa trazer visibilidade para esse público e pensá-los como consumidores. Mas por que não também como trabalhadores?”

A solução

Para executar seu projeto, o executivo foi buscar ajuda justamente da aTip e da Walljobs, plataforma de recrutamento e seleção utilizada pela empresa para contratar trainees.

Paralelamente a isso, a Everymind montou um curso de 200 horas para os neuroatípicos interessados em trabalhar com o CRM que a empresa comercializa. “Tivemos que adequar a linguagem e a plataforma para atender a todas as pessoas”, conta Eduardo. “Não diria que foi difícil, mas precisou de tempo para mudarmos tudo que fazíamos.”

Logo no primeiro treinamento, percebeu que parte do público fazia aula síncrona, mas a maioria preferia o modelo assíncrono. “A aderência das aulas era de 80%, mas cada um fazia a seu tempo. Os neuroatípicos não têm um padrão, é preciso entender cada indivíduo”, afirma. 

Logo na semana seguinte ao primeiro curso, a empresa contratou sua primeira funcionária neurodiversa. 

“Percebi que cada um dos nossos profissionais neuroatípicos prefere uma forma de comunicação, uns preferem ligação, outros, mensagem de voz, outros, texto. O importante é perguntar a cada um o que é melhor.”

Também foi essencial trabalhar a sensibilização dos demais funcionários e Eduardo diz que ficou surpreso com a aceitação. “Não tivemos realmente problemas com isso e o público interno percebeu que os novos contratados tinham visões complementares às deles”. 

“O acompanhamento com a aTip, que oferece treinamento contínuo, também nos ajudou muito a entender como as coisas deveriam funcionar”, complementa. 

Resultado

Dos 300 funcionários da Everymind, 60 se autodeclaram neuroatípicos, ou seja, 20%. São profissionais em todos os cantos do país, cujos trabalhos variam entre híbrido e home office

“Não digo que os resultados foram melhores que o esperado porque entrei sem expectativas, mas estamos tendo muitas descobertas como seres humanos e aumentando a capacidade e os resultados da empresa”, conclui Eduardo. 

Um fato curioso é que em curto espaço de tempo, um trabalhador entregou uma solução de chatbot, programa que simula humanos na conversação virtual, que é algo que em geral levava muitos meses para ser feito. “Isso não significa que façam tudo mais rápido, mas que oferecem visões diferentes e nos surpreendem às vezes”.

Segundo ele, 85% das pessoas neuroatípicas contratadas pela Everymind estavam fora do mercado de trabalho. No geral, estima-se que 2% da população brasileira tenha essa característica. 

THINK & DO

  • Discurso e prática precisam estar conectados. Não fique apenas falando e pense em ações que possam ser executadas.

  • Adapte os funcionários. Pense em quanto está disposto a mudar o comportamento de quem está na empresa. Converse com os profissionais, treine-os. 

  • Busque o engajamento de todos. É preciso mobilizar os antigos funcionários para conseguir integrar os neuroatípicos. O tema tem que permear todas as conversas.