Quando a autocrítica bloqueia a produtividade

Robson Gonçalves explica por que o excesso de autocrítica bloqueia desempenho — e como o flow pode mudar esse cenário

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Se vivesse hoje, talvez Freud, neurologista de formação, ficasse fascinado com o conceito de flow (fluxo) e suas relações com o superego. Esse inquisidor interno, guardião de valores morais e das normas de conduta, pode ser também um forte inibidor da criatividade e da alta performance. Colocá-lo em seu devido lugar é uma das grandes ambições da neuropsicanálise corporativa.

A neurociência define o flow como um estado alterado de consciência, no qual o cérebro opera com máxima eficiência e mínimo esforço consciente. Esse estado envolve uma reconfiguração temporária da atividade cerebral, que privilegia a fluidez da ação em detrimento da reflexão analítica e crítica. Vale para músicos, cirurgiões ou mães que amamentam: para o cérebro, a natureza da tarefa é secundária.

No campo da neuropsicanálise corporativa, o interesse recai sobre um desdobramento do flow: a hipofrontalidade transitória. É nesse ponto que surge a conexão com o superego, uma das instâncias do “aparelho psíquico” descrito por Freud.

Na hipofrontalidade há uma alteração específica no funcionamento do neocórtex pré-frontal. O cérebro é inundado por dopamina, noradrenalina, acetilcolina, anandamida e endorfinas. Essa combinação amplia o foco, acelera o reconhecimento de padrões e aumenta a resiliência física e mental. O ego pode atingir níveis elevados de lucidez e desempenho.

Onde o superego entra na história? A hipofrontalidade envolve a inibição temporária de áreas associadas à autocrítica, à dúvida e à percepção do tempo. A mente se mantém no fluxo e reduz atividades cognitivas ligadas à autorreflexão.

Na psicanálise freudiana, o superego (frequentemente associado à função autocrítica atribuída ao pré-frontal) exerce três funções principais: auto-observação, consciência moral e formação de ideais.

No contexto organizacional, ele atua como um “gerente psíquico de compliance”, avaliando cada decisão à luz das normas da empresa, das expectativas dos acionistas e do medo do erro ou da demissão.

Embora seja essencial para garantir um comportamento ético e alinhado às normas, um superego hiperativo no ambiente profissional pode se manifestar como uma autocrítica paralisante, que sufoca a criatividade em nome de uma segurança excessiva.

Em termos freudianos, a hipofrontalidade pode ser entendida como a tradução biológica de um relaxamento temporário das funções censoras e “castradoras” do superego. 

Quando esses mecanismos são inibidos no flow, o indivíduo deixa de se perguntar: “O que vão pensar dessa ideia?” ou “E se eu falhar?”. Como consequência, a energia psíquica antes consumida pela vigilância do superego sobre o ego é redirecionada para a execução da tarefa.

Outra interpretação psicanalítica interessante é que, no estado de flow, a distância entre o Eu (ego) e o Ideal do Eu perde relevância momentaneamente.

Essa visão de quem desejamos ser nos motiva a buscar progresso profissional e pessoal. No entanto, o medo de jamais alcançar esse Ideal do Eu também pode atuar como força de sabotagem.

No flow, ainda que de forma momentânea, aceitamos ser apenas o melhor possível naquele instante, independentemente da distância que nos separa de nossos planos de vida e de carreira.

Aliviado da pressão exercida pelo Ideal do Eu, o ego ganha foco e desempenho, em um surto criativo e produtivo impulsionado pela combinação e pela sequência adequada de neurotransmissores.

Uma das delícias desse estado é a mudança de postura diante da possibilidade de errar. No flow, com o superego temporariamente inibido, o erro deixa de ser percebido como falha moral ou ameaça e passa a ser apenas algo a corrigir. Um erro cometido torna-se mais valioso do que um acerto jamais tentado.

Outro elemento fascinante é a alteração na percepção do tempo, função executiva típica do pré-frontal. Com a hipofrontalidade, o tempo parece se expandir, pois o censor que projeta o futuro e nos enche de “pré-ocupações”, ou revisita o passado e produz remorso, está inibido.

Sem a vigilância rígida do superego, o cérebro passa a estabelecer conexões entre ideias que, em condições normais, seriam consideradas absurdas, desconexas ou fora do padrão. Esse relaxamento favorece a criatividade. Afinal, toda inovação já foi, em algum momento, uma heresia.

Sob a ótica da neuropsicanálise, criatividade e alto desempenho não se alcançam ignorando o superego, mas permitindo que ele permaneça estrategicamente em suspenso – condição que influencia diretamente os níveis de produtividade na empresa.

Ele sempre há de voltar – e isso é saudável – dizendo: “Você surtou!” E nossa resposta deve ser: “Sim, é verdade. Sai o gato, dança o rato”. É o triunfo, ainda que fugaz, da execução sobre a paralisia psíquica, do ímpeto criativo sobre a inibição moral.

Foto de Robson Gonçalves

Robson Gonçalves

Economista comportamental e neuropsicanalista, coordena os cursos de Neurobusiness da Fundação Getulio Vargas. Na Think Work, escreve sobre neurociência, liderança e relações humanas nas organizações.

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