Rafael Souto alerta para o risco dos algoritmos nos confinarem em bolhas de informações e experiências
Vivemos na era do “para você”: dos aplicativos que sugerem o próximo vídeo, livro ou música, das redes sociais que filtram as informações conforme nossos interesses e dos algoritmos inteligentes que sabem com precisão o que precisamos, quando e como. Somos constantemente bombardeados com conteúdo desenhado sob medida.
A promessa é de uma experiência única, hiperpersonalizada, que atende exatamente aos nossos gostos e padrões de consumo. Mas será que essa personalização extrema não está nos conduzindo a um paradoxo inquietante: o de nos tornarmos, coletivamente, menos únicos?
Pense bem: se todos os algoritmos trabalham para nos mostrar “mais do mesmo” do que já gostamos, por outro lado, onde está o espaço para o inusitado? Para a surpresa? Para aquela ideia que vem de um universo completamente diferente do nosso e que, de repente, acende uma lâmpada na mente? Em outras palavras, ao invés de expandir nossos horizontes, a personalização pode estar nos confinando a uma bolha de informações e experiências.
Isso é particularmente crítico no mundo corporativo e nas nossas carreiras. O profissional de hoje precisa de adaptabilidade, visão de futuro e capacidade de resolver problemas complexos. Como ele desenvolve essas habilidades se seu repertório está sendo alimentado repetidamente pela mesma fonte, que apenas valida o que já conhece ou acredita?
Um estudo do professor Omid Rafieian, da Cornell University, acende um alerta. De acordo com ele, essa comodidade da personalização pode vir à custa da nossa própria capacidade de exploração e aprendizado. Ao nos tornarmos excessivamente dependentes dos algoritmos que nos servem conteúdos “customizados”, corremos o risco de reduzir nossa própria iniciativa em buscar, descobrir e aprender independentemente. Como resultado disso, pode haver um empobrecimento do repertório e da capacidade de fazer escolhas mais amplas.
Essa lógica se conecta a outros dados. Em um evento recente, realizamos uma pesquisa com quase 800 profissionais e identificamos que o maior desafio apontado para as companhias hoje é justamente o do engajamento e protagonismo, com 37% das respostas. Faz sentido, não? Isto é, se todos somos bombardeados o tempo todo com informações no piloto automático, como esperamos que nossos colaboradores tenham uma busca ativa e a iniciativa de propor coisas novas?
Para que não nos tornemos um exército de indivíduos supostamente únicos, mas, na verdade, padronizados em nossas bolhas, a responsabilidade de mudar o jogo é nossa. É urgente cultivar essa consciência também em nossos colaboradores, estimulando a busca ativa pelo que desafia, surpreende e que verdadeiramente nos expande. Somente assim garantiremos que a era da personalização nos impulsione para um futuro de diversidade e inovação genuína, e não para uma despersonalização coletiva.