A partir dos casos da “astronauta” mineira e da estudante goiana premiada em Harvard, Patrick Schneider discute o risco dos holofotes sobre quem não tem mérito
Algumas semanas separam as histórias de duas jovens. Uma, mineira, seria astronauta. A outra, goiana, tornou-se a primeira brasileira a receber o Sophia Freund Prize em Harvard.
O que as diferencia? De modo simplista, a primeira ganhou espaço graças à narrativa e fake news. Já a segunda, com uma conquista real, não recebeu o mesmo destaque nas redes regidas por algoritmos repetitivos. Talvez sequer tenha sido notada.
Ampliando o foco, esse recorte revela aspectos do cenário social contemporâneo. Já faz um tempo, lorotas no currículo se converteram em mentiras no LinkedIn. Uma foto em frente à ONU acompanhada de um texto inspiracional sobre conflitos no Oriente Médio ou crises climáticas é suficiente para gerar centenas, ou até milhares, de reações, compartilhamentos e notoriedade. Mesmo sem qualquer realização concreta, apenas verborragia.
A busca por relevância algorítmica chegou à “rede profissional”, até então considerada blindada contra a bulshiteria existente em outras distribuidoras de dopamina pobre, mas de alto impacto anestesiante.
Na minha bolha, não vi uma linha sequer sobre Sarah Borges, recém-admitida no doutorado em Cambridge, no Reino Unido, após ter sido bolsista e ter ralado muito para que Harvard, uma das principais instituições de ensino do planeta, lhe conferisse uma distinção singular na história de nosso jovem país.
Por outro lado, o caso da autodeclarada astronauta seguiu outro rumo. Aliás, logo após ser descoberta quanto a sua pós-verdade, tentou revestir a sua “mentirinha” como experimento social. Dada a velocidade de propagação de sua história, talvez tenha sido mesmo.
Sarah, sem o reconhecimento merecido no país, em entrevista ao jornal O Globo, mencionou várias vezes a jornada da irmã gêmea – curiosamente chamada Sophia, como o prêmio –, que cursa Medicina na USP e faz doutorado em Harvard, graças a uma vaquinha online que viabiliza seus estudos.
Ao compartilhar sua visibilidade com a irmã, num gesto que carrega sororidade, Sarah também seguiu exatamente o que a gênese da lamentavelmente esvaziada agenda de DE&I esperava das pessoas que “chegavam lá”: alcançar destaque e trazer consigo quem enfrenta vulnerabilidades semelhantes.
Todos os dias, pessoas como ela levantam a bandeira do país em espaços de excelência. Nem todos têm seguidores suficientes para domesticar algoritmos. Ou talvez, o mais triste, é que suas conquistas não empolgue olhares diante do “espelho negro na palma da mão”. Este não revela que, para ser verdadeiramente relevante, é preciso trilhar o caminho completo, sem atalhos. Uma verdade difícil de encarar, especialmente no LinkedIn.
Os dois casos me levam a outra reflexão. Num país, onde apenas 18,4% da população com mais de 25 anos têm formação superior e ínfimos 0,8% concluíram mestrado (Censo de 2022), precisamos parar de dizer que o ensino universitário deixou de ser necessário.
Acredito que tal discurso nasce de uma interpretação equivocada. SxSW, Vale do Silício, Israel, Portugal e China, celeiros da disrupção radical, nunca afirmaram textualmente que estudar não importa. O que apontaram é que deixou de ser relevante no que a pessoa se formou, frente à capacidade crítica e à aprendizagem contínua. Além disso, o que foi dito tem muito mais a ver com áreas como a programação, considerando que a universidade não produz profissionais de TI em compatibilidade com o nível da demanda vinda do segmento.
No Brasil, o hype panfletário absorveu essa ideia de forma equivocada e jovens “nem-nem” (nem estuda, nem trabalha) passaram a acreditar que estudar é desperdício, já que é possível enriquecer nas redes sociais.
Fazendo um paralelo, a tradução à brasileira nesse caso foi similar a dos anos 1960, quando em meio ao flower power americano, mergulhado em anos de chumbo, o país abraçou somente o “power” dos alucinógenos processados. O “flower” da liberdade, não chegou até aqui.
Comparado a outros países, o Brasil tem um déficit enorme na formação de médicos e engenheiros e pesquisadores. Estes, quando diante de algo que poderia posicionar o país na vanguarda da ciência, optam por ir para o estrangeiro em busca de recursos e de seriedade institucional.
A pergunta que se impõe é inquietante: seria o momento de travarmos a evolução acadêmica no Brasil? Ou, ao contrário, devemos encarar a urgência dos tempos, que exigem a habilidade de formular perguntas profundas?
Pensadores da evolução da inteligência artificial (IA) afirmam que nunca se precisou tanto da capacidade filosófica, analítica, antropológica do ser humano para lidar com a complexidade. O privilégio de se emocionar com o belo ao ler um poema, encher os pulmões de ar para escutar atentamente uma melodia densa como Eleanor Rigby ou mesmo se reconhecer em uma obra de Almodóvar não é replicável, e nem deveria ser. Mas se perde na tentativa de buscar um atalho, como decorar prompts.
Nesse contexto, preciso falar sobre Recursos Humanos. Costumo dizer que o que extinguirá o RH não é a IA, mas os memes proliferados sobre a nossa atuação, que zombam do que fazemos, ao mesmo tempo em que denunciam a perda de relevância acelerada da área. E isso justamente em tempos que pedem o enaltecimento do valor do humano. O fechamento dessa abóbada? O impulso que damos a quem mente nas redes e a invisibilidade de quem poderia enriquecer nosso ecossistema profissional.
A astronauta atingiu seu objetivo, teve “cinco minutos de fama”, como previu Andy Warhol. Aliás, sua maior mostra fora dos EUA está em cartaz em São Paulo. Justo Warhol, que ilustra a verdadeira contracultura tentada por muitos dos tidos como “influencers”, não tem atraído público como se espera. Se soubéssemos que, antes de tentar ser contracultura, é preciso necessariamente ter cultura, lotaríamos o espaço para apreciar suas nuvens de prata e desacelerar, ainda que brevemente, neste mundo em rotação frenética, que despreza a checagem de fatos e se encanta com a inverdade.
O momento exige desafiarmos o haikai sublime do poeta – meu conterrâneo idolatrado – Mário Quintana, de quem tomei emprestada a frase que dá título a este ensaio: “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. Talvez, se nossos olhos se voltassem para textos como os dele, a oportunidade de aplauso para aquilo que nunca existiu passaria despercebida.