Projeto da Eppo contrata profissionais em situação de vulnerabilidade

Programa Buscare já contratou mais de 100 pessoas em situação de rua, grave situação financeira ou ex-presidiários

Por Guilherme Dearo

A Eppo, empresa que atua em diversas cidades do interior de São Paulo no segmento de engenharia ambiental, vinha buscando um contato próximo com a rede socioassistencial das cidades onde atuava desde 2015. A ideia era contratar profissionais em situação de vulnerabilidade e que precisavam de uma nova chance – ou chance inédita – de entrar no mercado de trabalho. 

Havia um apoio intenso entre a área de assistência social da companhia e o departamento de recursos humanos, que sempre buscavam contratar pessoas em necessidade ou que mostravam interesse em mudar de vida. 

Então, em 2020, o RH percebeu que era preciso estruturar melhor essa iniciativa dentro de um plano social maior, que envolvesse toda a empresa e incluísse a busca pela certificação do Sistema B, que reconhece os negócios que equilibram propósito e lucro, considerando o impacto de suas decisões em todos os stakeholders

Para estruturar um projeto de maior impacto, foi criado o programa Buscare no final de 2020 e início de 2021, envolvendo Gabriela Rizzi, analista de RH da Eppo, e as assistentes sociais Vanessa Dias e Juliana Souza. 

O caminho

Presente em sete cidades, como Itu, Lorena e Sorocaba, a companhia fechou parcerias com a rede socioassistencial dos municípios em que atua, como ONGs, Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). Entre as ONGs parceiras estão o Centro Pop, de Itu, focado na população em situação de rua, e também a Conexão Jovem e Crescimento Limpo. 

Com essa rede, a empresa recebe indicações e currículos de pessoas em situação de vulnerabilidade, como as que passaram pelo sistema carcerário, em situação de rua, em grave situação financeira ou abandono conjugal e doméstico. 

A Eppo conta com um e-mail próprio para o recebimento de currículos, que é divulgado na rede de apoio das cidades. Periodicamente, vagas exclusivas para o projeto são abertas, evitando que os profissionais em situação de vulnerabilidade tenham que competir com candidatos de outros perfis. 

Após uma triagem feita pelo departamento de recursos humanos, a área de pessoas, junto da área de assistência social, faz uma entrevista com o candidato. Após a entrevista, ocorre a contratação e o treinamento. 

Como muitas delas estão conquistando seu primeiro emprego formal, a empresa explica todos os detalhes sobre horários, responsabilidades, direitos e benefícios. Os contratados podem trabalhar em áreas como administrativo e operacional. 

“Buscamos currículos e estamos em contato com as instituições todos os dias. Essas pessoas já passaram por um acompanhamento do pessoal da rede socioassistencial, então sabemos que estão interessadas e aptas a trabalhar conosco”, explica Vanessa Dias. 

Para Juliana Souza, o projeto Buscare é um exemplo de como a empresa trabalha com o capitalismo consciente e tem a responsabilidade de olhar para a realidade na qual está inserida, repleta de desigualdades que precisam ser combatidas. 

Para ela, o programa tem um significado ainda mais especial. “Lutamos para quebrar o estigma em torno dessas pessoas que vieram de situações vulneráveis, pois sempre acham que elas não estão aptas ao trabalho ou que são preguiçosas e não querem trabalhar”, diz. 

O engajamento das lideranças e outros profissionais da companhia também é essencial para que o projeto tenha sucesso. “Desde março de 2022, estamos promovendo treinamentos sobre diversidade entre os gestores e também criamos no passado um comitê de diversidade, além de dar palestras a todos os funcionários onde falamos de questões de raça, gênero, orientação sexual etc.”, explica Gabriela Rizzi. 

O programa da Eppo foi finalista do prêmio Think Work Flash Innovations de 2022 na categoria atração e seleção. 

Resultado

Como resultado, 100 pessoas contratadas via projeto Buscare já passaram pela companhia ou ainda trabalham nela. Segundo a equipe da Eppo, os profissionais que saíram estão trabalhando em outros lugares, um indicativo de sucesso profissional. 

“Acompanhamos a evolução pessoal e financeira desses profissionais e vemos como eles estão evoluindo e mudaram suas vidas”, conta Juliana. Do que foi possível ser apurado, apenas um dos trabalhadores que passaram pelo Buscare acabou retornando ao sistema carcerário.

A companhia gosta de lembrar alguns casos de sucesso entre os profissionais contratados pelo Buscare, como o de Luana, mulher trans de 21 anos que não tinha nenhuma experiência no mercado formal de trabalho até ser contratada pela Eppo para a área operacional. 

Na entrevista para conquistar a vaga, disse que era a primeira vez naquela situação que a chamavam por seu nome social, respeitando seu gênero. Após a contratação, Luana começou o processo para a sua transição hormonal, seu sonho antigo, e se voluntariou para dar aulas de maquiagem às demais mulheres da empresa. 

Para 2023, a Eppo manterá o Buscare e pretende aumentar a porcentagem de pessoas contratadas pelo programa na companhia. Segundo Juliana, a ideia é encontrar novas parcerias com ONGs e outras instituições. A cada cidade que a Eppo chegar, a meta é criar contato com a rede local. 

“Apesar das turbulências financeiras que as empresas vêm enfrentando nos últimos anos, o Buscare depende muito mais do capital humano do que financeiro, e depende muito mais de todos superarem preconceitos e buscarem um olhar mais humano para a sociedade e suas desigualdades”, diz Juliana. 

THINK & DO

  • A empresa precisa engajar lideranças, conselho e demais funcionários em torno do projeto, trabalhando com conscientização e sensibilização. Todos devem abraçar o programa e entender a importância daqueles novos profissionais entre eles, superando quaisquer estigmas ou preconceitos. 
  • Um acompanhamento social e profissional constante dos profissionais contratados é essencial. A empresa não pode apenas jogar a pessoa nova dentro da companhia. Deve haver um contato e apoio constante para observar a evolução do profissional e sentir dificuldades e novas oportunidades de crescimento. 
  • As parcerias locais são fundamentais para qualquer projeto do tipo. A pessoa ou setor responsável precisa ter um contato direto com a rede de assistência social da comunidade para ligar a empresa com quem mais precisa, em busca dos melhores resultados.