Startups de tecnologia adotam jornadas de até 72 horas semanais

Modelo conhecido como jornada 996, com expediente das 9h às 21h, seis dias por semana, ganha espaço em empresas de inteligência artificial nos Estados Unidos

Empresas de tecnologia nos Estados Unidos vêm adotando jornadas de trabalho que chegam a  72 horas semanais, em um movimento associado à cultura 996, com jornada das 9h às 21h, seis dias por semana.

Um dos exemplos mais citados é a startup Rilla, sediada em Nova York, que desenvolve sistemas de inteligência artificial para monitorar equipes de vendas em campo.  As vagas divulgadas pela empresa deixam explícita a exigência de longas jornadas presenciais, combinadas com benefícios como alimentação gratuita, academia e plano de saúde. A proposta é atrair profissionais dispostos a priorizar velocidade, ambição e entrega extrema.

Segundo executivos da companhia, o modelo não é visto internamente como exaustivo, mas como parte de um perfil específico de talento. A empresa afirma buscar profissionais comparáveis a “atletas olímpicos”, movidos por obsessão e ambição.

Não há, segundo a gestão, horários rígidos: a lógica é trabalhar intensamente quando surgem ideias ou demandas críticas e compensar em outros momentos. Hoje, a Rilla tem cerca de 120 funcionários operando sob esse regime.

A adoção desse tipo de jornada ocorre em meio à corrida global pela liderança em inteligência artificial. Com grandes volumes de capital sendo direcionados a startups e laboratórios de IA, o tempo se tornou um fator estratégico. Fundadores e investidores temem ficar para trás em um mercado altamente competitivo, o que pressiona equipes a acelerar entregas e ampliar a carga de trabalho. Essa lógica de “quem chega primeiro vence” tem reforçado culturas organizacionais que valorizam resistência e disponibilidade total.

O conceito de 996 ganhou visibilidade inicialmente na China, na década passada, com apoio público de líderes do setor de tecnologia, entre eles, Jack Ma, fundador do Alibaba, que descreveu a jornada estendida como um “privilégio” para pessoas apaixonadas pelo que fazem.

No Brasil, o debate segue na direção oposta. Cresce a discussão sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho, com sindicatos, especialistas e parte do Congresso defendendo modelos que priorizem saúde, qualidade de vida e sustentabilidade do emprego.Dados oficiais reforçam esse contexto. Um levantamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), com base em informações do Ministério da Previdência Social, aponta que mais de 470 mil trabalhadores brasileiros foram afastados em 2024 por transtornos mentais, como ansiedade, depressão e burnout — um aumento de 68% em relação a 2023.

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