Especializada em cidades inteligentes, Eppo percebeu um alto volume de funcionárias sendo desligadas após voltarem de licença-maternidade
Por Marina Dayrell
Em 2021, a Eppo, empresa que atua no segmento de engenharia ambiental, começou a perceber um alto volume de funcionárias demitidas após voltarem de licença-maternidade. Durante as entrevistas de desligamento, o modo que essas mulheres foram mandadas embora e os motivos citados começaram a ser frequentemente a própria licença e o tempo em que elas ficaram afastadas do cargo.
A realidade da empresa naquela época não estava distante do mercado de trabalho brasileiro como um todo. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, quase metade das mulheres que tiram a licença-maternidade não permanecem em seus trabalhos um ano após utilizarem o benefício.
No caso da Eppo, os desligamentos ainda ajudaram a reforçar a desigualdade de gênero na demografia interna da empresa, que atualmente é de 24,5% de mulheres e 75% de homens.
Caminho
“Ao levantar esses dados, entendemos que era necessário escutar as mulheres da organização e enviamos uma pesquisa perguntando o que deveríamos fazer para melhorar esse indicador”, conta Talita Agudinho, especialista em Desenvolvimento Humano e Organizacional da empresa.
Após essas conversas, foi criada uma equipe multidisciplinar composta pelas áreas de Serviço Social, Saúde, Tecnologia da Informação, Desenvolvimento Humano e Operações. A partir dessa equipe, foi desenvolvido o projeto “Carreira e Mamadeira”.
O programa é uma ação de apoio para mães, pais, adotantes e pessoas grávidas que os acompanha desde a primeira notícia da gravidez ou adoção até após a chegada da criança. Um de seus pilares é responder aos anseios desses funcionários em relação a a tomada de decisão de aumentar a família e a carreira.
A primeira etapa do programa é no ambulatório médico e acontece logo após a pessoa funcionária descobrir a gravidez ou dar início ao processo de adoção. A partir daí, o projeto é dividido em quatro trilhas, cada uma buscando sanar uma gama de necessidades distintas.
A Trilha de Acolhimento Pré-Natal é a responsável pela parte da saúde de mães, pais e gestantes. Nesta etapa, a pessoa tem orientações sobre alimentação, exercício, exames, os tipos de parto, a saúde do bebê e da mãe, puerpério, entre outros.
Logo em seguida, vem a Trilha de Desenvolvimento Chá de Camomila, que dá suporte ao desenvolvimento de carreira de gestantes e mães que irão adotar, uma vez que esse grupo é, historicamente, o que tem as suas carreiras mais prejudicadas pelos estigmas e pela falta de preparo do mercado de trabalho.
Na área de direitos trabalhistas, foi criada a Trilha de Atendimento Cegonha, em que mães e pais recebem informações sobre o que lhes é garantido pelas leis e dicas sobre os procedimentos burocráticos que terão que realizar.
Por fim, a Trilha da Chegada do Recém Nascido acontece após o parto ou adoção e consiste na visita de um assistente social à casa dos pais e mães para orientar sobre o acompanhamento psicológico oferecido pela empresa e monitorar a fase de puerpério das gestantes.
Desde 2021, quando o projeto foi implementado, ele precisou passar por ajustes em relação à desburocratização interna, com o intuito de facilitar a adesão dos funcionários.
Outra mudança foi a adição de palestras e comunicações para toda a empresa, mesmo para quem não é mãe ou pai, para que houvesse a sensibilização das pessoas, uma vez que, para o programa funcionar efetivamente, é preciso que todo mundo esteja na mesma página.
“Em uma dessas iniciativas, tivemos uma palestra sobre filhos por adoção, e houve uma chuva de retorno sobre o quanto esse tema era desconhecido e que, de fato, é muito mais profundo do que imaginam”, conta Rafael Salvador, supervisor de tecnologia de informação na Eppo.
Resultados
Até hoje, 30 funcionários já passaram pelo programa, sendo 21 mães e 10 pais.
Com essa amostragem, a EPPO já percebeu que o projeto tem sido eficaz para evitar demissões de pessoas que voltam de licença-maternidade e paternidade. Dentre essas 30 pessoas, apenas uma foi demitida. A retenção de mães e pais até seis meses após o retorno da licença tem sido de 94%.
Um grave incidente moldou parte dos objetivos do programa para os próximos meses: uma das funcionárias da empresa cometeu suidício durante o puerpério. Com isso, atualmente, os times por trás do projeto estão focados em entender como podem dar suporte para as mães e as famílias em situação de vulnerabilidade social.
Ainda para 2023, a empresa planeja iniciar rodas frequentes de conversas entre mães, pais e filhos, em que serão compartilhadas experiências sobre parentalidade e família.
THINK & DO
- Entenda a sua realidade. Cada empresa tem uma realidade diferente e, com isso, necessidades diversas. Por isso, antes de criar um projeto, é preciso entender, primeiro, quais são essas demandas.
- Feedbacks constantes. Uma boa forma não só de criar um projeto que atenda às necessidades da sua força de trabalho, mas também de aprimorá-lo com o tempo é coletar feedbacks dos diversos públicos da sua empresa.
- Não tenha receio de olhar para as suas fraquezas. Para conseguir criar e colocar em prática um projeto como esse, foi preciso que a Eppo se dispusesse a olhar para as suas falhas internas, a partir de dados concretos. Esse processo pode ser doloroso e trazer à tona problemas que a gente não quer enxergar, mas que prejudicam a empresa e precisam ser sanados.
