Com mais de 400 candidatos, programa selecionou 12 enfermeiros para primeiro ano da iniciativa
Por Guilherme Dearo
Após os períodos mais críticos da pandemia, o Hospital Israelita Albert Einstein viu com ainda mais clareza o que já era uma certeza antes da covid-19: era preciso aumentar o investimento e valorização das equipes de enfermagem, essenciais na experiência e segurança dos pacientes.
Para isso, foi desenvolvido um projeto inédito no Brasil, a partir das sugestões dos próprios enfermeiros, incluindo-os em um programa de Prática Baseada em Evidências (PBE), iniciativa mundialmente reconhecida por melhorar a assistência à saúde em ambientes hospitalares.
No modelo PBE, o profissional assistencial trabalha a partir de uma pergunta clínica. A partir dela, a literatura científica é revisada e recomendações para a indicação de uma prática nova ou mudanças na técnica já existente são realizadas. Ou seja, se um protocolo de assistência à beira-leito precisa passar por alguma mudança ou correção, o processo PBE, quando utilizado, indica o melhor caminho para o cuidado com os pacientes e na utilização de recursos.
Um dos desafios superados para implementar o projeto foi o de conseguir encaixar as questões legais e contratuais com o tempo dedicado pelo enfermeiro à assistência ambulatorial e também à pesquisa.
“O RH trabalhou ativamente com os responsáveis das áreas de prática assistencial, pesquisa, jurídica, de contratos e de remuneração para encontrar uma solução que funcionasse para o hospital e para os profissionais”, explica Luciana Pátria, consultora de RH da empresa.
Segundo ela, o desafio era que os enfermeiros continuassem suas escalas de trabalho, se dedicassem à pesquisa e ainda tivessem uma remuneração justa por isso.
O caminho
Para o desenvolvimento do projeto, foi feita uma vasta pesquisa de benchmarking internacional para encontrar os melhores exemplos de práticas e ambientes hospitalares favoráveis ao desenvolvimento de projetos PBE. Após a aprovação do Einstein, o edital interno do programa foi lançado em maio de 2022.
Em julho e agosto, o hospital fez dinâmicas e entrevistas com os quase 400 candidatos internos interessados no programa. Em setembro, os 12 selecionados passaram por uma oficina de PBE e por um workshop de inovação, dentro de uma estratégia de capacitação inicial.
Agora, os 12 funcionários passarão um ano desenvolvendo os projetos de PBE, resultando em 22 projetos finais, que contemplarão as diferentes áreas do hospital, como oncologia, centro cirúrgico, clínica médica, unidade de terapia intensiva e materno-infantil, dentre outras áreas.
O RH contou com a parceria de um fornecedor que ofereceu uma plataforma que permitiu a gamificação de uma das etapas do processo seletivo, de modo a encontrar quem possuía os perfis e competências específicas.
A partir deste sistema, os candidatos eram desafiados a buscar soluções para quatro enigmas. Ao mesmo tempo, era feita uma análise comportamental pensando em cinco habilidades: gestão de recursos, tomada de decisão, reação à mudança, resolução de problemas e tolerância a riscos.
Segundo Lidiane Costa, especialista em práticas assistenciais da empresa, “para atingir níveis de excelência em enfermagem, é preciso envolver os profissionais que estão à beira do leito. São eles que possuem os melhores questionamentos e entendem o que passam no dia a dia.”
Para ela, a PBE permite que o hospital enxergue e busque por problemas da prática, encontrando um melhor protocolo para cada tipo de cuidado, encurtando o tempo gasto nas resoluções destes problemas e com maior sucesso. “No conceito da medicina baseada em valor, é preciso entregar a assistência de maior qualidade evitando gastos desnecessários. Com a PBE, você implementa ações que já foram testadas e provadas pela ciência, você tem mais certeza do sucesso daquela ação”, diz.
Outro ponto essencial ao adotar a PBE é o de reforçar o caminho para a alta confiabilidade da instituição, um de seus princípios básicos, o de garantir que o paciente não terá danos decorrentes de eventos adversos que ocorreram dentro do estabelecimento durante a sua internação. Um hospital de alta confiabilidade tem eventos adversos próximos a zero.
O projeto do Einstein foi o grande campeão do prêmio Think Work Flash Innovations de 2022 na categoria carreira.
Resultados
Para 2023, a equipe está confiante de que o projeto será renovado para mais um ciclo e de que o numero de vagas possa aumentar. O Einstein acaba de ser reconhecido com o Magnet, da American Nurses Credentialing Center (ANCC), sendo o único hospital da América Latina a ter tal certificado de excelência.
“Carregar o reconhecimento Magnet envolve que a gente mantenha a nossa estrutura de pesquisa e de PBE junto aos enfermeiros clínicos. Além disso, um dos objetivos da liderança da companhia é o de elevar o patamar da nossa enfermagem a algo nunca antes visto no Brasil em termos de empoderamento de profissionais, uso da ciência e aumento do reconhecimento”, explica Lidiane.
Para Luciana, o projeto ajuda a empoderar a área como um todo, tornando os funcionários “mais completos, mais engajados, capazes de ter uma visão totalizante e crítica”, diz.
“Quando você investe nos enfermeiros e dá espaço para que eles assumam coisas de maior complexidade, para além do contato direto com os pacientes, você aumenta a satisfação deles com a organização e com a profissão. É o que temos sentido logo nesse segundo mês de projeto”, completa Luciana.
Ela arremata: “eles nos contam que nunca tinham tido tempo, por exemplo, de parar para ler artigos científicos. O PBE amplia o empoderamento deles, eles vão agir a partir de evidências científicas, tendo certeza de que estão fazendo algo melhor para os pacientes no dia a dia.”
THINK & DO
- Lembre que será preciso quebrar barreiras e construir pontes. Um projeto desse tipo exige grande parceria entre diversas áreas e equipes, como as de contratação, remuneração, jurídico e pesquisa;
- O projeto precisa estar alinhado com a estratégia macro da instituição, que tem a ver com colocar o paciente (ou o cliente) no centro e buscar excelência em confiabilidade;
- Ouça ativamente os funcionários envolvidos no processo. É essencial entender as necessidades e experiências deles.
