A cada 50 reais investido pelos pais, há uma contrapartida do mesmo valor da empresa. Poupança para filhos aumenta a conexão dos trabalhadores
Por Guilherme Dearo
Há sete anos Karin Ramos trabalha na fintech Conta Azul, criada em 2011 para desenvolver sistemas de gestão online que visam otimizar processos financeiros de micro e médias empresas. Diretora de recursos humanos, ela percebeu uma nova tendência há quatro anos.
“O perfil dos funcionários mudou nesse período”, ela diz. Antes, a empresa era nova e os empregados também eram muito jovens. Essas pessoas foram ganhando idade e começaram a ter filhos, enteados, a falar do sonho de formar uma família. “Vimos, então, que precisávamos repensar nosso pacote de benefícios. Quando o perfil da empresa muda, mudam os interesses, logo, os benefícios também precisam se adaptar”, conta Karin.
A companhia rodou uma pesquisa de clima e fez perguntas sobre finanças, descobrindo que havia entre seus funcionários uma preocupação sobre economizar para o futuro – e que essa preocupação aumentara durante o período da pandemia da covid-19.
A área de recursos humanos entendeu a necessidade de falar mais sobre poupança com seus profissionais – e que muitos estavam buscando uma maneira de começar a investir. A necessidade, inclusive, é uma característica muito brasileira. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 77% das famílias brasileiras estão endividadas em 2022. E, segundo dados do Serasa de 2021, 51% dos pais e mães ainda não investem em fundos para os filhos, mas gostariam de começar a fazê-lo.
O caminho
Diante desse novo perfil de profissionais, a Conta Azul decidiu fornecer um novo benefício: uma poupança para os filhos dos trabalhadores, administrada pelo aplicativo Pulpa. Criada por ex-funcionários da Conta Azul, a Pulpa incentiva e ajuda as famílias a planejar o futuro das próximas gerações.
Qualquer funcionário com crianças de até 10 anos de idade pode aderir ao benefício. A cada 50 reais descontados na folha de pagamento do trabalhador, outros 50 reais são depositados pela empresa na conta criada para o dependente. Assim, são 100 reais por mês destinados ao futuro dos jovens.
Os “Azuis”, como são chamados quem trabalha na Conta Azul, podem ainda convidar familiares e amigos para contribuírem, mas não há contrapartida da empresa nesses casos. Caso um funcionário deixe o quadro da fintech, a conta da criança continua ativa e os interessados podem manter seus depósitos caso queiram.

O app também tem a funcionalidade de armazenar mensagens de vídeos gravadas pelas famílias, que poderão ser assistidas pelos jovens no futuro.
A Pulpa tem parceria com a seguradora Icatu e mantém o dinheiro das contas em um plano de previdência mutimercado data-alvo, devidamente regulado pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP). Há uma carência de 60 dias. Após esse prazo, o responsável legal pode fazer movimentações, como pedir a portabilidade para outra instituição financeira ou até sacar o dinheiro. Contudo, se o funcionário retira o valor antes de as crianças completarem 18 anos, as “cápsulas do tempo” (os vídeos gravados) são perdidas e todas as pessoas que contribuíram com um depósito são notificadas.
“Quando falamos de pacote de benefícios, falamos de experiência, do que eles representam. É muito além do fator financeiro”, destaca Karin. “A Pulpa resumiu nossa ideia de oferecer um benefício que transmite e valoriza a ideia de bem-estar e cuidado. Ele é bem diferente dos oferecidos por outras empresas.”
O projeto da Conta Azul foi eleito o Destaque do Ano pelo voto popular no prêmio Think Work Flash Innovations de 2022, além de ter sido o campeão na categoria Remuneração de Benefícios.
Os resultados
Imediatamente após o lançamento, em novembro de 2021, 60 funcionários aderiram à poupança para os filhos. Quase um ano depois, são 70 profissionais participando da iniciativa e 80 crianças beneficiadas. Hoje, 45% das pessoas elegíveis usam o Pulpa.
Em pesquisa interna feita após as adesões, 87% dos respondentes disseram ter conversado sobre o app e a poupança para os filhos em casa, com a família, nos últimos três meses. Além disso, 63% falaram com os amigos sobre o projeto. Essa troca de informações indica como a boa iniciativa da Conta Azul pode se espalhar para outras pessoas e companhias – fortalecendo sua marca empregadora.
Karin Ramos afirma que o benefício foi bem recebido internamente por ser diferenciado. “As pessoas gostam porque tem um fator emocional, envolve os filhos, e isso é um apelo importante, para além da questão financeira”, diz a executiva. “Recebemos feedbacks espontâneos, inclusive porque é um benefício que as pessoas não encontram em empresas por aí afora, e porque é muito simples e sem burocracia”, analisa.
Ela explica que não houve percalços no caminho para implementar a Pulpa na Conta Azul, mas que sempre há aprendizados e que podem surgir novidades. “No futuro, podemos, por exemplo, estender o benefício para crianças além dos dez anos de idade, se fizer sentido.”
THINK & DO
Como encontrar o benefício ideal para seus funcionários
- Pesquise e mapeie o perfil de seus funcionários. Entenda o que os motiva. A partir disso, busque um benefício que responda diretamente a essas demandas;
- Procure ações que gerem valores intangíveis: que conecte as pessoas e gere senso de pertencimento. Alguns benefícios podem ser padronizados, mas outros precisam refletir a cultura única da companhia;
- Encontre benefícios fáceis de administrar – que não gere trabalho excessivo para o RH nem pese no bolso dos trabalhadores, reforçando os ganhos da iniciativa.

