EDP cria escola para treinar e desenvolver pessoas trans

Primeira turma formada pela escola já teve um índice de 73% de efetivação no mercado de trabalho

Por Guilherme Dearo

A EDP Brasil, empresa do setor elétrico com atuação em São Paulo e Espírito Santo, percebeu em 2018 que precisava investir mais em questões de diversidade e inclusão.  

Para isso, suas diversas comissões internas (Raça, Equidade de Gênero, LGBTQIAP+, entre outras), que discutem e apresentam propostas que podem ser incorporadas pela companhia, tiveram suas atuações expandidas.

Os grupos, responsáveis por várias iniciativas dentro da organização, encabeçaram projetos como a primeira turma afirmativa da Escola de Eletricistas para mulheres. O sucesso do programa levou a companhia a desenvolver, em 2021, uma nova escola afirmativa para formar profissionais, dessa vez voltada ao público trans. 

“Em geral, as pessoas trans passam por muitas dificuldades, desde o processo de autoaceitação, falta de acolhimento de seu núcleo familiar e da sociedade, abandono dos estudos e falta de oportunidades formais no mercado de trabalho”, diz Glaucia da Costa Santos, gestora executiva de gestão de pessoas da EDP.

Segundo ela, boa parte delas acaba tendo de ingressar no mercado informal. “Como uma empresa do setor elétrico, vimos a oportunidade de contribuir para capacitar esse público, possibilitando que eles tenham uma profissão, uma carreira a seguir, na EDP ou em outras companhias do setor”, completa. 

O caminho 

Com a participação da área de pessoas, de distribuição e de negócios, o time liderado por Glaucia criou a Escola de Eletricistas Afirmativa Para Pessoas Trans, com o objetivo de dar qualificação profissional na área para esse público. 

A empresa também contou com a contribuição da Integra Diversidade, co-fundada por Maite Schneider, uma das maiores referências em empregabilidade de pessoas trans do Brasil, que ajudou a recrutar e selecionar os candidatos.

As inscrições para as primeiras turmas do projeto abriram em novembro de 2021 e as aulas aconteceram de fevereiro a junho de 2022, formando os primeiros 19 alunos do projeto. Foram duas turmas: uma em Guarulhos (SP) e outra em Serra (ES). O Senai firmou uma parceria com a EDP para ser o responsável pela formação técnica dos profissionais. Os participantes fizeram 500 horas de curso e ganharam um certificado da instituição. 

Além das aulas específicas para a formação do eletricista, a escola também conta com um módulo voltado ao desenvolvimento de competências comportamentais, ministrado por Maite Schneider. 

A EDP também disponibilizou aos estudantes seu programa de assistência social, previdenciária e jurídica, com acolhimento humanizado, por meio de um canal gratuito e confidencial, que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. 

O programa da EDP foi finalista do prêmio Think Work Flash Innovations de 2022 na categoria diversidade.

Resultados 

“As turmas foram marcadas por muitas histórias de superação. Havia pessoas que nunca tinham conseguido ingressar no mercado de trabalho formal”, conta Glaucia. 

Dos 19 formados, houve um índice de 73% de contratação pela EDP ou por empresas parceiras. Todos os outros profissionais entraram para o banco de talentos da companhia, de modo a participarem de processos seletivos futuros. 

Segundo Glaucia, ao criar a turma para mulheres da Escola de Eletricistas, o projeto virou referência para o setor e várias companhias construíram ações nesse sentido. “Queremos que agora a nossa iniciativa com pessoas trans também seja referência e, principalmente, que possa ser replicada por outras companhias ou até servir de inspiração para novas iniciativas”, diz.

O plano é continuar com o projeto em 2023, com novas turmas em São Paulo e Espírito Santo. Após a criação bem-sucedida da escola, a EDP espera aumentar a sua diversidade de funcionários. 

Em uma pesquisa realizada em 2020, 2% dos trabalhadores da empresa se declararam pessoas trans, mas o número deve ser maior em 2022, por conta da política de contratação de grupos sub-representados. Com o novo projeto, o time de RH da companhia espera que esse número cresça ainda mais. 

Glaucia diz que foram ministrados cursos sobre LGBTQIAP+ para toda a liderança da EDP e todos os funcionários receberam guias sobre o assunto. “Assumimos também o compromisso de contratar, por meio dos nossos processos seletivos para vagas efetivas, pelo menos 50% de trabalhadores de grupos sub-representados”, completa Glaucia.

THINK & DO

  • Busque apoio dos líderes. A empresa precisa acreditar na agenda proposta, enxergando a questão como imperativa ao negócio e como um desafio sensível e urgente no Brasil. Assim, a liderança precisa perceber seu papel como catalisadora da mudança.
  • Avalie a demanda por profissionais na companhia para encontrar as áreas com mais carências e, assim, direcionar o projeto dedicado à formação profissional ao âmbito que mais necessita.
  • Conscientize a empresa como um todo. É preciso trabalhar de modo conjunto a sensibilização dos funcionários, lideranças e parceiros de negócio. Tornar a empresa mais diversa e inclusiva requer engajamento e papéis ativos e contínuos.