Organização investiu em projeto de trainees focado em candidatos transexuais, negros, pardos e mulheres
Por Camila Pati
Com cerca de 17 mil funcionários e operações em mais de 60 países, a Yara Fertilizantes tem a diversidade como um pressuposto da cultura. Mas, na prática, a quebra de paradigmas de gênero, etnia, orientação sexual e demais quesitos desse pressuposto exige ações afirmativas voltadas para a liderança.
Com essa constatação em mente, Daniela Nunes, gerente de RH da Yara à época, propôs a criação de um programa de trainees com um novo objetivo: o recrutamento de uma turma em que metade dos aprovados atendesse a critérios de diversidade.
“Nós buscamos transexuais, negros, pardos, pessoas com mais idade, mulheres, e todas as pessoas que se identificavam com os quesitos de diversidade de gênero”, explica Daniela.
Com o apoio de uma consultoria especializada em levar pluralidade para as organizações, o projeto de trainee Nutrindo Talentos 2021 foi lançado ao mercado com a meta de 50% de atração de candidatos diversos para a companhia.
Uma vez que se trata de uma meta e não uma opção, a subjetividade e os vieses tendem a ser postos de escanteio. “Ao se deparar com um transexual como opção para ser uma pessoa da área comercial, a gente ainda tinha, na fala do líder, aquela tendência a questionar como enviar um transexual para uma fazenda para vender fertilizantes, por exemplo”, explica Daniela.
Quando a meta deixa de ser opcional, o preconceito pode até resistir, mas o gestor precisará ser sujeito ativo das ações em busca da diversidade. “Antes, tínhamos tudo no campo teórico e passamos a ter no campo das iniciativas”, diz ela.
O caminho
Além do hunting ativo, diversas ações de comunicação foram feitas no sentido de informar ao mercado que a companhia estava priorizando a diversidade e para fazer o projeto chegar efetivamente ao público alvo do programa.
Fora a ampla divulgação na imprensa geral e especializada e de um hotsite com informações e vídeos, as redes sociais foram essenciais na atração de candidatos. Uma empresa especializada também foi contratada.
“A consultoria parceira divulgava nas redes sociais que a Yara teria um programa de trainee super diferente, pedindo que as pessoas se conectassem para saber mais”.
Fazer o projeto chegar até o público alvo foi uma das maiores dificuldades enfrentadas, segundo ela. “Muitas vezes as pessoas menos favorecidas ou que historicamente são colocadas em posições de menor destaque não se acham elegíveis a esse programa”. Para aumentar o alcance, a exigência de inglês também foi flexibilizada.
Com tempo de formação superior entre dois e quatro anos, os cursos elegíveis variavam de acordo com a localidade e área de atuação do trainee. Algumas posições, aceitavam todas as graduações.
No mais, algumas vagas eram voltadas a engenheiros de diferentes áreas, administradores, cursos de TI, profissionais formados em ciências contábeis, logística, comunicação, direito, economia, entre outros.
O projeto da Yara foi o campeão do prêmio Think Work Flash Innovations de 2022 na categoria desenvolvimento de jovens.
Resultados
Foram 19 contratados de 24 a 33 anos, e 52% são pardos, pretos ou amarelos e 18%, LGBTQIA+. Apesar do esforço para atrair mais mulheres, isso não aconteceu. O programa formou uma turma de 58% homens cisgênero, uma marca do setor agrícola no País.
Como é de praxe, os trainees recebem uma capacitação e são envolvidos dentro dos processos corporativos. Além da formação técnica a respeito dos produtos, metodologia de vendas e de produção, os profissionais também participam de cursos comportamentais e relacionados à cultura da empresa. A nota de satisfação sobre as trilhas de aprendizagem foi de 9,4, segundo a Yara.
Ao quebrar o padrão na contratação de trainees, o projeto trouxe a grande vantagem de incluir diferentes perfis, culturas e realidades na organização, de acordo com Daniela. “Quando a gente abre o leque de participantes, abre também a questão cultural e comportamental, você traz muitos perfis diferentes para dentro da organização. É um ganho.”
Além das estatísticas de diversidade obtidas no contexto do programa de trainees, Daniela cita também a presença de mulheres na liderança da Yara. “Temos uma diretora de marketing, duas gerentes mulheres e uma diretora de RH e uma diretora no centro de excelência. Tudo isso vai fazendo com que a gente transforme o mundo do trabalho”, diz.
Hoje ela já não ocupa mais a cadeira de gerente de RH, está gerindo as relações sindicais na Yara. “É, de fato, a minha área de expertise”, conta. A nova roupagem com busca ativa pela diversidade no projeto Nutrindo Talentos deve permanecer para a próxima edição, prevista para 2023, segundo ela. “Eu acredito que plantei uma semente”, diz.
THINK & DO
- Desafie a organização, questione e corra riscos. Tenha coragem;
- Estabeleça boas parcerias com consultorias e entidades;
- Tenha um bom plano de desenvolvimento profissional.
