Processo seletivo do programa de trainee recebeu 10.000 inscritos a mais que no ano anterior ao focar em nove grupos de diversidade, como povos tradicionais, mulheres, pretos e pardos
O Grupo Cataratas, responsável pela gestão e operação de parques e atrações de turismo sustentável no Brasil, como as Cataratas do Iguaçu, no Paraná, sempre teve a diversidade como um valor inegociável. Estudos mostram que empresas diversas colhem benefícios como inovação, melhores relações de trabalho e crescimento financeiro, conforme um relatório da consultoria McKinsey. No entanto, internamente, a realidade do Grupo Cataratas não refletia essa diversidade desejada. A empresa, que emorega cerca de 1 mil funcionários, enfrentava um cenário onde a maioria dos profissionais contratados possuía características homogêneas, como gênero, idade e formação.
“Quando olhamos para dentro, vimos que só tínhamos, por exemplo, pessoas que se identificavam como cisgênero. Entre os que chegavam no programa de trainee, a maioria era engenheiro”, Isabela Militino, líder da área de transformação do Grupo Cataratas. A empresa percebeu que precisava quebrar viéses inconscientes, que faziam com que as contratações fossem sempre de pessoas parecidas em relação a gênero, idade, formação e outros pontos.
O caminho
Em 2020, o Grupo Cataratas deu o primeiro passo para transformar essa realidade, criando a área de Diversidade, Equidade e Inclusão, com representantes de nove grupos: mulheres, pretos e pardos, povos tradicionais, refugiados e imigrantes vulneráveis, mães, pessoas com deficiência, 50+, LGBTs e pessoas trans.
O segundo passo foi fazer a seleção de trainees. Em 2021, o programa “Só Feras” foi reformulado para “Só Feras Plurais”, com um processo seletivo às cegas focado nesses grupos de diversidade.
Os candidatos passaram por um teste de afinidade com a cultura da empresa e escolheram entre atuar na área técnica ou de operações. “Tínhamos um déficit de liderança nessas duas áreas e queríamos atrair profissionais como veterinários e biólogos, que têm a ver com nossa área de atuação. Por isso, em vez do job rotation que havia antes, decidimos pedir ao candidato para escolher uma das duas áreas”, diz Isabela.
A empresa eliminou algumas exigências, como inglês fluente, e tornou todo o processo de candidatura anônimo, evitando vieses inconscientes Os gestores não sabiam a faculdade, o curso, o gênero, a idade, nenhuma informação que pudesse criar um viés na hora da seleção. “Ouvimos comentários dizendo que baixamos a régua, mas não foi isso. Apenas decidimos avaliar melhor. Por exemplo, um candidato muito focado em resultado, não vai ser feliz aqui dentro. Tem outros aspectos importantes para a empresa que buscamos nas pessoas. Não se trata de caridade”, explica Tales Abreu, líder da área de Seleção Natural.
Na etapa final, 20 candidatos apresentaram projetos para a diretoria e presidência, que estavam de olhos vendados, garantindo uma avaliação justa e focada no conteúdo. Cada candidato tinha dois minutos para convencer metade dos ouvintes a tirar a venda. Quem conseguisse, ganhava mais cinco minutos para sua exposição.
Para Tales, o mais desafiador foi o fato de ter aberto a seleção para grupos plurais. “O grupo já tinha passado pela experiência de fazer uma seleção assim, às cegas. Tivemos o receio de saber que haveria gente suficiente”, conta ele, que não esconde que a equipe enfrentou resistência externa no início. “O mercado pode ser cruel, um candidato pode chegar maltratado por outros processos. Por isso, utilizamos o Instagram da empresa para mostrar todo o processo, dando feedback de como havia sido cada etapa. Tudo de forma muito pautada, bem alinhado para que ninguém desistisse. E foi muito gratificante ver, no final, talentos tão excepcionais.”
Essa abordagem está alinhada à cultura organizacional do Grupo Cataratas, que preza pela valorização da inclusão e da meritocracia. O processo seletivo às cegas incentiva a formação de uma equipe diversificada e representa uma vantagem competitiva para a empresa, pois traz perspectivas diversas e estimula a inovação.
O resultado
A edição de 2023 do “Só Feras Plurais” bateu recorde de inscrições, com 25 mil candidatos, 10 mil a mais que no ano anterior. Desses, 80 foram selecionados para a etapa presencial e 20 chegaram à fase final. Quatro candidatos foram escolhidos para o programa de trainee, que tem duração de dois anos: duas mulheres, sendo uma negra, e um homem negro.
Após a seleção, os novos trainees passaram por um período de integração de três meses, conhecendo a essência e cultura da empresa e vivendo o dia a dia dos parques.
O programa de trainee do grupo existe desde 2017. Ao todo, já teve 12 trainees e todos foram efetivados. Hoje, seis ainda continuam na empresa, além dos quatro que acabaram de chegar. “Com esse modelo, conseguimos juntar o propósito de negócio com o de empresa cidadã. A gente sabe que a diversidade traz ganhos de produtividade, gera inovação. Participando desse ponto e da forma como fizemos a seleção, já conseguiremos sanar um gap de liderança nas áreas técnica e de operações. Selecionar pessoas que já chegam alinhadas à cultura da empresa e que podem ser formadas como líderes internamente é um benefício enorme”, diz Isabela.
Como resultado do processo seletivo às cegas, o Grupo Cataratas não só aumentou a diversidade entre seus quadros, mas também fortaleceu sua cultura organizacional e a capacidade de inovação. Exemplos de sucesso incluem Talita, responsável pela área Ambiental da empresa, e Tainá, gerente de Novos Negócios, ambas ex-trainees que se destacaram em suas áreas.
O foco em fortalecer os pilares do negócio — educação, pesquisa, conservação e entretenimento — reforça o compromisso da empresa com a sustentabilidade e responsabilidade social. Ao selecionar trainees que compartilham essa visão, a organização amplia suas capacidades para enfrentar os desafios do mercado no setor de turismo. Os trainees trazem novas perspectivas, habilidades e conhecimentos para desenvolver soluções inovadoras e alinhadas com as práticas de sustentabilidade, contribuindo para o crescimento do negócio e o impacto positivo no meio ambiente.
Até 2024, houve apenas uma edição do Só Feras Plurais, mas vale observar o avanço dos grupos de diversidade desde que a área de Diversidade, Equidade e Inclusão foi criada. Antes dela, em 2019, o grupo Cataratas contava com 42% de mulheres entre seus funcionários e 43% de pretos e pardos. Hoje, elas representam 55%, sendo 40% da liderança. Já o índice de pretos e pardos passou para 52%, e 44% da liderança.
THINK & DO
Dicas para criar um processo seletivo às cegas
- Tenha a alta liderança do lado da sua ideia. O RH é o principal ator para que um projeto seletivo às cegas e plural como o do Grupo Cataratas possa acontecer. Mas Isabela lembra que é importante ter alta liderança do seu lado. “Ela precisa comprar a ideia e assinar embaixo para que o RH consiga, de fato, implantar algo assim”;
- Tenha um comitê de diversidade. Num processo como esse, é preciso alinhar as expectativas da empresa com as dos candidatos. Uma maneira de fazer isso é ouvindo o público que deseja atrair. “Nós, por exemplo, temos o comitê de diversidade, que nos muniu de informações. Isso é muito importante”, afirma Tales;
- Sensibilize toda a empresa. Mas não adianta ter os principais líderes a seu favor e não fazer um trabalho de sensibilização com o restante da empresa. “Não basta colocar as pessoas para dentro. Elas devem ser respeitadas e acolhidas. Então, prepare o ambiente para isso”, diz Tales;
