“Escola Nota 10”, da MRV, oferece aulas de leitura, escrita, matemática e habilidades socioemocionais a trabalhadores da empresa durante o expediente
Por Marina Dayrell
Por muitos anos, a construção civil ficou conhecida como um setor com grandes índices de analfabetismo. Em 2011, por exemplo, esse número era de 2,44% dos trabalhadores.
Mas nos últimos 20 anos, o índice caiu 66% e, hoje, 0,59% dos profissionais da área, ou seja, cerca de 13 mil trabalhadores, não sabem ler e escrever, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais 2021).
Além de políticas governamentais, iniciativas privadas também ajudaram a mudar esse cenário. Uma delas é a Escola Nota 10, criada pela construtora MRV em 2011 com o objetivo de diminuir o analfabetismo entre trabalhadores dos canteiros de obras pelo Brasil e mudar o cenário da educação na Construção Civil.
“No cenário brasileiro, sabemos que a produtividade do trabalhador da construção civil é 75% menor que nos Estados Unidos, por exemplo. Financeiramente falando, estima-se 230 milhões de reais em perdas anuais por baixa produtividade em operações de empresas brasileiras deste setor”, explica José Luiz Esteves da Fonseca, Gestor Executivo de Sustentabilidade da MRV. Ainda segundo ele, o nicho também se destaca pela alta rotatividade de profissionais, contando com uma taxa média de turnover de 4,9 enquanto a média geral é de 3,8.
Caminho
O “Escola Nota 10” nasceu em 2011 e é um programa de reskilling profissional. Contando com infraestrutura instalada nos próprios canteiros de obras, ele oferece aulas de leitura, escrita e matemática, além de desenvolver habilidades para a vida e para o trabalho, como autoestima, empatia, autonomia, responsabilidade, criatividade, tolerância, entre outros.
No início do projeto, as aulas eram realizadas ao final do expediente, mas a empresa percebeu que o horário deixava os alunos muito cansados. Com isso, há três anos, as aulas passaram a ser no início do horário de trabalho, quando os alunos estão mais descansados para obter o melhor rendimento.
Em algumas situações, a MRV oferece auxílios, como cestas básicas, para estimular os trabalhadores que desejam voltar a estudar.
O grande diferencial, segundo José Luiz, é a velocidade de aprendizagem que a metodologia propicia. “Por usarmos metodologias ativas de ensino, em que cada aluno recebe de forma personalizada os conteúdos que precisa desenvolver, o projeto é capaz de desenvolver um aluno 4,8 vezes mais rapidamente que um sistema educacional tradicional como o utilizado na Educação de Jovens Adultos (EJA)”, conta.
O projeto é gerido pelos times de Produção, Sustentabilidade e Relações Institucionais da empresa, e conta com o apoio do Instituto MRV.
Depois do isolamento social provocado pela pandemia, quando foi preciso paralisar o projeto, a empresa também fez uma parceria com a Alicerce Educação, que hoje dá suporte à metodologia de ensino.
“A primeira dificuldade que enfrentamos foi em relação à implantação das escolas. Muitos modelos foram pensados e testados para o projeto. Hoje, trabalhamos com o modelo de escola em salas e refeitórios da MRV e, também, com salas containers, um tipo de sala criada pela Alicerce para atender s trabalhadores de forma personalizada”, conta José Luiz.
Outro grande desafio, segundo ele, é o alto turnover de trabalhadores da construção civil, que reflete também em quem frequenta as aulas. A duração de cada escola depende da duração da obra onde ela foi implantada, o que faz com que novas edições sejam iniciadas com bastante frequência.
Resultados
Ao longo de 12 anos, o projeto já alfabetizou ou capacitou mais de 4.800 trabalhadores da construção civil em todo o país. Desde que começou a parceria com a Alicerce, 378 pessoas já concluíram algum dos ciclos pedagógicos e 890 certificados foram emitidos. A frequência média nas aulas é superior a 85%.
José Luiz também explica que os resultados gerados pelo “Escola Nota 10” vão além dos números e acontecem a curto e médio prazo: a qualificação da mão de obra aumenta a produtividade dos trabalhadores, com consequente economia financeira para a MRV, além da retenção de talentos na área.
Para 2023, o projeto está passando por uma reformulação que tem como objetivo aumentar, de forma intencional e estruturada, o número de funcionários participantes do projeto em cada escola. Atualmente, há 378 alunos no “Escola Nota 10”.
“Nosso plano é manter o “Escola Nota 10” até que não tenhamos nenhum trabalhador analfabeto em nossas obras”, declara José Luiz.
THINK & DO
- Entenda como você pode mudar o mundo. Um projeto como esse, seja a médio ou longo prazo, traz resultados financeiros para a empresa, mas esse não é o foco dele. A organização vai continuar lucrando, mas é importante entender como podemos transformar o mundo enquanto fazemos isso.
- Crie mecanismos de apoio. Não basta inventar um projeto, é preciso criar condições para que as pessoas participem dele. Fazer com que ele funcione durante o expediente, por exemplo, é uma boa forma de incentivar o engajamento.
- Analise os resultados e reveja a rota. Nenhum projeto é tão bom que não precisa ser lapidado. No decorrer dele, você precisa entender quais são os pontos de melhoria para ajustá-los nas próximas edições.
