Uso compulsivo de telas é grande risco à saúde mental de jovens, aponta estudo

Estudo com mais de 4 mil crianças e pré-adolescentes revela que a relação entre tecnologia e saúde mental está mais ligada ao uso compulsivo do que ao tempo total de exposição

Uma pesquisa publicada no jornal médico JAMA com mais de 4 mil crianças nos Estados Unidos revelou que o maior fator de risco para pensamentos suicidas na adolescência não é, necessariamente, o tempo de tela, mas o uso compulsivo de celulares, redes sociais e videogames. 

O estudo acompanhou participantes dos 10 aos 14 anos e identificou que comportamentos classificados como “uso aditivo” — como dificuldade de parar de usar e sofrimento ao ficar sem acesso — estavam associados a um risco duas a três vezes maior de ideação suicida ou automutilação.

Também foi identificado maior uso aditivo entre jovens negros, latinos e de famílias com menor renda e escolaridade, o que aponta para desigualdades estruturais no acesso e nos impactos da tecnologia. Embora não descarte totalmente o papel do tempo de tela, a pesquisa reforça que o mais importante é entender como e por que os jovens estão online, e oferecer apoio para que esse uso seja saudável.

Para a pesquisadora Yunyu Xiao, da Weill Cornell Medical College e autora principal do estudo, o foco das intervenções familiares precisa mudar. Segundo ela, o uso compulsivo é comum já na infância, especialmente com celulares, e deve ser tratado com psicoterapia cognitivo-comportamental, e não apenas com restrições de acesso.

Responsabilidade compartilhada

Além das famílias, os dados do levantamento reforçam a necessidade de políticas públicas que responsabilizem também as empresas de tecnologia pelo efeitos nocivos da exposição às telas.

No Reino Unido, por exemplo, já foi adotado um Código de Design Apropriado por Idade (Age Appropriate Design Code). Trata-se de um código de conduta que exige que os serviços online considerem a faixa etária dos seus utilizadores e implementem medidas de privacidade e segurança compatíveis.

Mudanças como essa podem ser um caminho para compartilhar a responsabilidade com grandes corporações, já que o discurso centrado em reduzir o tempo de tela coloca toda a carga nos responsáveis — especialmente famílias de baixa renda — e ignora o papel das plataformas na criação de mecanismos viciantes.

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